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“Pode faltar comida, mas não leitura”: como as bancas ajudam a moldar o hábito de gerações

Espaço tradicional enfrenta desafios, mas segue formando novos leitores
28 fev 2026 às 13:30
Por: Guilherme Prado
Foto: Guilherme Prado

“Na minha casa pode faltar comida, mas não pode faltar leitura.” Dona Socorro, 77 anos, é a autora da frase e uma das personagens que entram e saem da banca SuperQuadra. Professora e bancária aposentada, ela conta que aquele espaço é um dos grandes amores da vida dela. Gosta porque é organizado, limpo e, principalmente, porque ali sempre há o que ela mais valoriza: algo novo para ler.


A poucos metros dali, a rotina segue. Um cliente, já idoso, hesita por um segundo antes de decidir levar o jornal, mesmo sendo do dia anterior. Atrás do balcão, acompanhando cada movimento, está Kelly Galiotto. É ela quem observa, na prática, a mudança de comportamento de quem passa pela banca e também quem carrega a história do lugar.


A história começou antes dela. No fim dos anos 1980, o pai montou a banca ainda na calçada, na Avenida Duque de Caxias, em Londrina. Era um ponto típico de passagem: gente indo e vindo, parando por impulso, folheando, comprando. “Meu pai está aqui desde aquela época. Antes era na rua. Depois, com a mudança da ‘Cidade Limpa’, durante a época do Barbosa Neto, a gente veio pra esse ponto aqui, bem em frente.”


A lei foi o primeiro golpe duro que as bancas sofreram. Com as revistas fora das ruas, as pessoas deixaram de ser expostas ao produto no caminho. O consumo por impulso diminuiu, e o público passou a ser, cada vez mais, aquele que já tinha o hábito da leitura. Depois, veio outro problema: a distribuição. Com mudanças no setor, revistas que chegavam semanalmente passaram a chegar com atraso, outras deixaram de ter regularidade e algumas simplesmente desapareceram. Por fim, veio o impacto mais profundo: a pandemia de Covid-19.

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“Em outros países, as notícias foram consideradas serviço essencial durante a pandemia. Na Itália mesmo, as bancas não fecharam. Aqui, as notícias foram consideradas dispensáveis pelo governo e nós tivemos que fechar”, lembra.


Mesmo com as portas fechadas, alguns clientes insistiam em manter o vínculo. Ligavam, faziam pedidos, pediam para separar palavras cruzadas, revistas, jornais. Era uma tentativa de preservar um hábito que, pouco a pouco, foi se enfraquecendo. Com o passar dos meses, o que parecia temporário deixou marcas mais duradouras. “Muita gente perdeu o hábito. Ficou em casa, se acostumou com o celular, com a televisão… depois não voltou mais”, conta.


A consequência aparece no cotidiano da banca. Pais preocupados com o tempo de tela dos filhos, mas que nunca criaram, dentro de casa, o contato com o impresso. Outros tentam mudar isso ali, no balcão, apresentando novas possibilidades. “Às vezes a criança nem sabia que isso existia. Aí ela vê, pega, começa a folhear… e se interessa.”


Para Kelly, esse momento é decisivo. Não se trata apenas de leitura, mas de experiência. Diferente do celular, onde o conteúdo já chega pronto, o impresso exige descoberta. O olhar percorre as capas, a mão escolhe, a curiosidade guia. “As crianças seguem muito o exemplo dos pais. Se o pai lê, ela vai ler. Se não lê, fica difícil cobrar depois.”


Mesmo com todas as mudanças, a banca ainda cumpre esse papel de apresentação. E, curiosamente, muitas vezes o caminho começa no digital. Jovens chegam atrás de histórias que conheceram em séries, vídeos ou redes sociais. Procuram mangás, livros, personagens que já fazem parte do universo deles, mas agora querem no papel.


Diante desse cenário, permanecer como antes deixou de ser uma opção. A banca precisou se adaptar. Livros ganharam espaço, encomendas se tornaram mais frequentes e produtos de nicho passaram a sustentar parte das vendas. “A gente vai se reinventando. Coloca mais coisa, tenta atender outros públicos. Quem vem buscar uma coisa, às vezes leva outra.”


Hoje, quem entra para comprar um jornal pode sair com um gibi para o filho. Quem procura uma revista acaba levando um livro. O consumo deixa de ser direto e passa a ser construído ali, no contato. No meio da rotina, entre um cliente e outro, a banca segue aberta, menos movimentada do que antes, é verdade, mas ainda presente na rotina da cidade. 


E, para quem entra pela primeira vez, como um dia entrou Dona Socorro, talvez seja o início de um hábito que resiste ao tempo. “O importante é conhecer. Depois que você começa, vira hábito.”

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