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Política

Bolsonaro diz que pai de presidente da OAB foi morto por correligionários

29 jul 2019 às 18:50
Por: Estadão Conteúdo

O presidente Jair Bolsonaro afirmou na tarde desta segunda-feira, 29, que Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, foi morto pelos correligionários que combatiam a ditadura a fim de evitar o vazamento de informações confidenciais. "Eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz", afirmou. "Não foram os militares que mataram ele não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo que acontece."

Ainda de acordo com o presidente, o grupo do qual Fernando fazia parte era "o mais sanguinário que tinha". Ele defendeu as Forças Armadas brasileiras: "Se os militares eram tão maus assim, por que entregamos o poder em 85 à oposição?" Ele disse ainda que ficou sabendo da morte do pai do presidente da OAB, de "quem eu conversei à época, oras bolas". "Não quero mexer com os sentimentos do sr. Felipe Santa Cruz, mas essa é a minha versão", afirmou.

A declaração de Bolsonaro, feita enquanto cortava o cabelo em uma transmissão ao vivo em suas redes sociais, foi uma tréplica a Santa Cruz, que havia criticado uma fala anterior do presidente. Pela manhã, Bolsonaro disse que poderia "contar a verdade" sobre como o pai dele desapareceu na ditadura militar. "Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade", disse. Preso pelas forças de segurança do Estado, Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira é considerado desaparecido até hoje.

O presidente da OAB reagiu e disse que as declarações de Bolsonaro demonstram "crueldade e falta de empatia".

Após as declarações de Boslonaro, no entanto, o assunto mais comentado no Twitter brasileiro passou a ser a hashtag #AgoraFalaBolsonaro, pedindo que o presidente diga o que sabe sobre o que aconteceu com Fernando de Santa Cruz. Na live, Bolsonaro disse que, após os pedidos dos internautas, responderia à pergunta.

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O livro-relatório "Direito à Verdade e à Justiça" destaca que um documento do então Ministério da Aeronáutica informou, em 1978, que Fernando Santa Cruz tinha desaparecido. Informações de perseguidos políticos ressaltaram que o desaparecimento ocorreu em 22 de fevereiro de 1974 e ele teria sido morto pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro.

Anistia Internacional

A Anistia Internacional divulgou uma nota de repúdio aos comentários do presidente sobre Fernando Santa Cruz e pediu que o caso seja levado à Justiça. "É terrível que o filho de um desaparecido pelo Regime Militar tenha que ouvir do presidente do Brasil, que deveria ser o defensor máximo do respeito e da justiça no país, declarações tão duras", afirmou a diretora-executiva da Anistia no Brasil, Jurema Werneck. "O Brasil deve assumir sua responsabilidade, e adotar todas as medidas necessárias para que casos como esses sejam levados à justiça. O direito à memória, justiça, verdade e reparação das vítimas, sobreviventes e suas famílias deve ser defendido e promovido pelo Estado Brasileiro e seus representantes".

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), chamou a mais cedo de "inaceitável" a declaração de Bolsonaro. "Não posso silenciar diante desse fato. Sou filho de um deputado federal cassado pelo golpe de 1964 e vivi o exílio com meu pai, que perdeu quase tudo na vida em 10 anos de exílio pela ditadura militar", disse o governador em evento no Palácio dos Bandeirantes.

Live

Por "falta de tempo", o presidente Jair Bolsonaro cancelou a reunião que teria na tarde desta segunda-feira, 29, às 15h, com o ministro de Negócios Estrangeiros da França, Jean-Yves Le Drian, mas conseguiu espaço na agenda para cortar o cabelo na sequência, e ainda a transmitiu pela internet.

Segundo o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o encontro foi cancelado por "uma questão de agenda do presidente". Antes das 16h, no entanto, Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais na qual aparecia cortando o cabelo no Palácio do Planalto. Procurada, a assessoria de imprensa da Presidência repetiu que a alteração ocorreu por "ajuste de agenda".

Mais cedo, Bolsonaro falou da reunião que teria com o ministro francês dizendo que Le Drian "não vai querer falar grosso" sobre assuntos relacionados ao meio ambiente porque "vai ter que entender que mudou o governo do Brasil".

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