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Política

'Saldo pode ser a volta da credibilidade da ciência', diz Mario Sergio Cortella

05 abr 2020 às 18:01
Por: Estadão Conteúdo

Autor de mais de 40 livros, o filósofo Mario Sergio Cortella, de 66 anos, acredita que o enfrentamento da pandemia do coronavírus pode deixar alguns legados para a sociedade, além dos problemas sanitários e econômicos. Para ele, a ciência e a mídia devem recuperar sua credibilidade, e o distanciamento social pode ser uma oportunidade para fazer coisas que o "cotidiano atribulado" não permite.

Ao responder sobre o que acha da atuação do presidente Jair Bolsonaro na crise, Cortella lembra que é importante, neste momento, que as lideranças políticas sejam didáticas e transparentes ao se comunicar com a população. "Não estamos tendo ainda esse conjunto virtuoso por parte de quem deveria", disse na entrevista, respondida por e-mail. O filósofo diz que tem seguido as orientações para ficar em casa e que, desde que começou seu distanciamento, só saiu de carro duas vezes.

Leia os principais trechos da entrevista:

O sr. acha que vivemos uma situação de guerra? Nessa situação, o coronavírus é o único inimigo? Ou também devemos combater a negação à ciência e a propagação de fake news?

O vírus já resulta em malefício suficiente sem que precisemos perder energia lidando com negações contínuas que tentam nos enganar ou que implicam má e falsa informação. Ainda assim, um saldo menos virulento deste momento será uma maior seletividade de fontes e uma retomada da confiabilidade e credibilidade de instituições, como a ciência e a mídia decentes.

As pessoas esperam uma liderança do presidente da República nesse momento? Acha que a atuação de Jair Bolsonaro, quando ataca medidas de restrição de circulação adotadas em todo o mundo, pode frustrá-las?

Toda liderança precisa, acima de tudo, ser didática, transparente e nítida nas trilhas que sugere e nos esforços que estimula. Não estamos tendo ainda esse conjunto virtuoso por parte de quem deveria.

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A que o sr. atribui a lentidão na tomada de decisão de alguns presidentes, como Bolsonaro, Donald Trump e López Obrador, e como vê o desprezo pela ciência?

A ciência, de modo geral, não é infalível. É preciso submeter intenções, processos e resultados à análise crítica dos pares e, inclusive, admitir ser desmentido, advertido ou ultrapassado, sem que soe como ofensa ou desacato. Nem todas as pessoas têm permeabilidade intelectual para tais requisitos, e, por isso, costumam menosprezar e subestimar a validação que ultrapasse a opinião vulgar.

Como o senhor vê esse suposto dilema entre salvar vidas e salvar a economia?

Relegar qualquer um dos polos à penumbra será funesto. Não há pessoas vivas sem economia operante e não há economia sem pessoas salvas. O crucial agora é discernir quais procedimentos são prioritários.

Nos últimos dias, vimos panelaços contra o presidente e também carreatas a favor do fim do isolamento social. A crise desperta essa ideia de separação - e não só a da solidariedade?

A crise não inaugura personalidades oportunistas e dissimuladas. A crise apenas as revela e alicerça naquilo que já eram capazes de ser e fazer, independentemente de a crise existir.

Que influência as redes sociais têm nessa polarização?

Toda polarização inútil neste instante dificulta e delonga alternativas de solução e torna-se aliada poderosa do vírus. Assim, urge avaliar se devemos mesmo empregar nosso escasso tempo em fomentar um viés deletério nas redes sociais, que podem e são frequentemente colaborativas.

Como essa crise pode afetar as relações entre pessoas?

Estivemos e ainda estamos colocando à prova nossa sensibilidade de convivência e tendo de manejar com mais habilidade a idiossincrasia e os melindres individuais. Em outras palavras, o necessário e compulsório isolamento social nos remeteu para um nicho familiar que não permite tanto o famoso "vou sair para esfriar a cabeça" ou o, agora arriscado, "não estou nem aí com você". Entendo que o núcleo familiar terá um número maior de sinergias e fissuras. Se a segunda vencer, o vírus carregará mais esse dano.

O que de positivo pode ser tirado do distanciamento social?

Alguma reclusão, sem que implique em solidão, é bastante benéfica, pois possibilita um uso mais liberado e seletivo do tempo disponível. Neste instante, o distanciamento servirá também para múltiplas ações que o cotidiano atribulado não permite com intensidade, desde convivências até reorganizações dos espaços e coisas. Além, claro, da dedicação ao ócio recreativo.

O senhor tem 66 anos, faz parte do grupo de risco para o vírus, e dá aula, palestras, escreve livros. Que cuidados tem tomado?

Desde o dia 16 de março estou em reclusão organizada, tendo saído de carro por algumas horas em dias distantes, sem contato inseguro com outras pessoas, para duas tarefas imprescindíveis e salvaguardadas. Afinal, embora me saiba mortal, quero adiar essa ocasião no limite máximo da minha saudabilidade e consciência livre.

O que a pandemia pode nos ensinar sob a ótica da filosofia?

Que a nossa eventual e iludida soberba como espécie encontra mais guarida no campo do nosso desejo do que naquilo que a natureza é capaz de erigir.

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