O lugar é simples, visto de fora, parece ser mais um bar, mas carrega mais um daqueles locais em que um pouquinho da história de Cascavel se faz presente. Reza o povo que a lanchonete Estrela é o mais antigo bar em funcionamento da cidade. É na avenida Brasil entre as ruas Dom Pedro II e Engenheiro Rebouças que clientes há anos todos os dias comparecem ao local para fazer aquele lanche, bater um bom papo e tomar aquele trago.
Desde 1969 a família Corradi, migrantes do estado de Santa Catarina toca o bar que já teve vários responsáveis, mas no troca troca de inquilinos sempre sobrava pra família tocar o estabelecimento.
Os irmãos Zeferino Corradi e Antônio Corradi vieram para Cascavel da cidade natal de Jaborá e construíram já na chegada o bar e um açougue numa sociedade entre os dois. Dez anos depois a sociedade foi desfeita e Zeferino ficou cuidando do estabelecimento. Em seguida, segundo Gilmar Corradi, que é filho de Antônio o local foi tocado por um homem chamado João, cujo sobrenome não lembra mais. Em seguida o negócio passou a ser tocado por Pedro Caramori que tocou o estabelecimento de 1979 até 1982. Em seguida as instalações do local passaram a ser administradas por Argenor Burilli que permaneceu no negócio por cerca de quatro anos.
Argenor Burilli é pai do goleiro Maizena que fez fama no futebol brasileiro ao atuar pelo Cascavel, Internacional, São Paulo, Seleção Brasileira de Juniores e Fortaleza. Foi praticamente do que ganhava no bar que ajudava o garoto no sonho de se tornar goleiro profissional.
“Ná época o Maizena que hoje reside em Fortaleza, devia ter uns 14, 15 anos. Eu brinquei muito tempo como goleiro e a gente brincava junto na Associação dos Dentistas. Eu até brinco com ele que ele não tinha nenhuma camisa pra jogar no gol e muitas vezes eu emprestava as minhas camisas pra ele jogar no gol. Eu atuava em uma trave e ele na outra. Dentro disso ele foi fez teste no Cascavel passou e seguiu carreira profissional de goleiro e se deu bem, fez um bom pé de meia e hoje está financeiramente bem lá no nordeste”, diz Gilmar.
Em 1985 o irmão de Gilmar Vitório e o primo Valério compraram a instalação do bar e as instalações do pai do goleiro Maizena e durante quatro anos eles administraram o local. Em 1989 Gilmar comprou a parte do irmão e mantiveram o local funcionando ao lado de Valério que veio a falecer no ano de 2001. Após a morte, a esposa de Valério, dona Lurdes assumiu a parte no negócio.
Em 2009 Gilmar aluga o bar para um genro de Lurdes que tocou o negócio até 2017, ano em que Gilmar e Lurdes venderam as instalações do bar mais uma vez, dessa vez para Rafael Locks e Pedro Lopes que é genro de Lurdes.
“Eles tão tocando o negócio até hoje, estão dando continuidade a esse longo tempo que agora em setembro de 2019 o bar Estrela vai completar 50 anos. É difícil um bar se manter tanto tempo assim e manter a clientela”, diz Gilmar.
Dos fatos que marcaram a história do local, o empresário recorda dos tempos da boate Kalayami em que, segundo ele, ocorriam encrencas quase que semanais nas proximidades do bar.
“Não tinha fim de semana que não tinha uma confusão. Teve várias vezes que tive que socorrer esfaqueados que vinham no bar sangrando pedindo socorro. Eles brigavam lá na Kalayami e vinham correndo pra cá pedir socorro e aí a gente se obrigava a chamar os socorristas. Apesar disso, graças a Deus nunca ocorreu mortes aqui, o bar sempre teve bons clientes, aqui sempre foi um local tranquilo. Em contrapartida apesar dessas confusões muita gente que ia na danceteria passava aqui consumir e nessa época a gente teve muito retorno, o movimento era intenso nos fins de semana, lotava quase todo fim de semana,” afirma Corradi.
O bar foi também um daqueles comércios que suportou a galopante inflação ocorrida entre o fim dos anos 80 até meados da década de 90.
“Era difícil, até a chegada do plano real quase todos os dias a gente tinha que remarcar os preços diariamente, você tinha dificuldade para saber quanto você ganhava, pois um dia era um preço, no outro valor diferente novamente e assim ia. Era um bolo de neve, difícil manter um negócio nesta época, mas graças a Deus chegou o real e a coisa ficou mais amena”, diz o empresário aliviado.
O empresário e ex-dono do bar Gilmar Corradi
E o segredo para o bar se manter tanto tempo no mercado?
"São vários fatores, é a questão do bom atendimento, alegria em atender o cliente, manter um bom preço, estando sempre a disposição das pessoas tendo um bom relacionamento com os clientes, tem que ter um equilíbrio com tudo isso. Você precisa ter variedade, não dá pra atuar com um produto só, você precisa do lanche, precisa de uma boa comida, ter uma boa sinuca, uma boa porção. Essa variedade te permite que aquele momento em que um produto não vende bem, outro possa se sobressair e não deixe cair o movimento. Você precisa estar atualizado e mantendo um olhar para compreender o que teu cliente pede. Se você não tem, tu precisa dar um jeito e proporcionar ele um bom atendimento. Você tem que tentar, se o produto cair nas graças dos clientes beleza, mas se não dá paciência, mas pelo menos você tentou. É tentando que você vai conseguir", afirma o empresário.
O bar ainda possui um cardápio único. Uma das receitas carro chefe da casa é o tradicional lanche de enroladinho de salsicha que possui um tempero diferente dos demais encontrados no mercado e vale a pena provar, é uma delícia.
Prato da Casa
E quem quer dar uma espairecida, tem aquela pinga tradicional, aromatizada e conservada com ervas naturais. Uma delas é a "pinga me ajuda", que também é destaque no local.
Reportagem de Antônio Mendonça e Alex Alves