Um estudo feito por cientistas da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia identificou 27 novos registros de abelhas nativas associados à lavoura de soja no Brasil. O levantamento, realizado nas regiões de Rio Verde e Montividiu, no sudoeste de Goiás, revelou que a presença desses insetos silvestres nas plantações pode aumentar o peso dos grãos em média 7%.
Os pesquisadores catalogaram 53 espécies de abelhas pertencentes a cinco famílias (Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae), considerando a cultura e os fragmentos de mata nativa no entorno. Os dados confirmam que a preservação dos polinizadores e das manchas de Cerrado vizinhas atua diretamente na produtividade agrícola, na sustentabilidade do setor e na segurança alimentar, atendendo a exigências de mercados internacionais.
O impacto do manejo e o avanço dos bioinsumos
Historicamente, a produção em larga escala do grão apoia-se no uso intensivo de inseticidas e fungicidas sintéticos. Esse modelo atua como um filtro ambiental, reduzindo a diversidade de insetos benéficos para a produção de alimentos. Segundo a pesquisadora Carmen Pires, propriedades com manejo químico intensivo registraram queda drástica na equitabilidade das comunidades de abelhas, favorecendo poucas espécies tolerantes e eliminando polinizadores mais eficientes.
Por outro lado, as fazendas que integraram bioinsumos — como bactérias e fungos para controle biológico e fertilização — mantiveram populações de insetos mais equilibradas e saudáveis. Como cerca de 60% das espécies encontradas nidificam no chão, a adoção da agricultura regenerativa, que reduz o revolvimento da terra e conserva a palhada, protege os ninhos subterrâneos entre as safras.
A importância da vegetação nativa do Cerrado
A proximidade com fragmentos florestais mostrou-se determinante para a presença dos polinizadores. O levantamento apontou que a riqueza e a abundância de abelhas nas flores de soja diminuem conforme aumenta o afastamento em relação às bordas da mata nativa. A vegetação do Cerrado fornece abrigo, alimento fora do período de floração da lavoura e locais de nidificação para 18% das espécies que habitam ocos de árvores.
Das abelhas coletadas no trabalho, 89% eram espécies nativas do Brasil e apenas 11% pertenciam à exótica Apis mellifera (abelha africanizada). Antes da pesquisa, a literatura científica registrava apenas 12 espécies de abelhas nativas associadas à cultura no País. O estudo ampliou esse número para 40 espécies na região, sendo 27 registros inéditos.
Para a captura das amostras, os cientistas testaram metodologias e constataram que os pratos-armadilha (pan traps) capturaram 95% dos indivíduos e identificaram 33 espécies, mostrando-se mais eficientes que as redes entomológicas ativas. A pesquisa integra o projeto Regenera Cerrado, conduzido em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Instituto Federal Goiano e a empresa Cargill.