Agro

Cultivo de cacau avança no Cerrado e gera chocolates finos

16 set 2026 às 12:58

A cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília, o cultivo de cacau ganha espaço em meio às paisagens do Cerrado, quebrando paradigmas históricos de que a cultura depende estritamente do clima úmido e quente do sul da Bahia ou do Pará. A iniciativa é liderada por Marlene, uma produtora rural que investiu na atividade há seis anos, após se aposentar. Em uma propriedade cercada por condomínios residenciais, ela cultiva mais de mil cacaueiros de cinco variedades e transforma a colheita em chocolates artesanais processados na própria fazenda.


Para vencer a aridez e a baixa umidade características do bioma do Centro-Oeste, a agricultora recorre ao sistema agroflorestal. A técnica consiste no consórcio dos cacaueiros com outras espécies vegetais da flora nativa e de cultivo, criando um microclima protegido do sol direto e retendo a umidade necessária para o desenvolvimento das plantas. No sítio, o ciclo entre a floração e a colheita leva cerca de seis meses, demandando manejo constante do solo e dos recursos hídricos.


O grande diferencial do projeto está no beneficiamento das amêndoas dentro da propriedade. O processo abrange desde a secagem das sementes por dez dias em esteiras e a torra controlada até a moagem em moinho de pedra, etapa que pode durar até 70 horas. A linha de chocolates finos valoriza os ingredientes regionais ao incorporar frutos típicos do Cerrado, como o baru e o murici, além de Pancs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). A marca já desenvolveu cerca de 150 receitas exclusivas comercializadas na capital federal por meio da internet, feiras e quiosques em centros comerciais.


Enquanto iniciativas regionais buscam nichos de alto valor agregado, o setor cacaueiro nacional enfrenta desafios estruturais. O Brasil ocupa a sexta posição no ranking mundial da cacauicultura, com produção anual próxima de 300 mil toneladas, liderada pelo Pará e pela Bahia. Apesar das estimativas da ANPC (Associação Nacional dos Produtores de Cacau) apontarem crescimento na produtividade das lavouras do país, a entidade alerta para a forte concentração do mercado comprador, dominado por poucas multinacionais de processamento, o que impacta diretamente os preços pagos aos pequenos produtores.

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