Apesar do avanço de soluções como sensores, drones, softwares de gestão e inteligência artificial no agronegócio, a disponibilidade de uma inovação no mercado não garante sua aplicação prática na rotina do produtor. Para enfrentar esse gargalo, pesquisadores da Embrapa e da Unicamp desenvolveram uma metodologia capaz de medir a viabilidade real de adoção de tecnologias digitais em diferentes contextos agrícolas.
Desenvolvido no âmbito do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital), o estudo foi publicado na revista científica Smart Agricultural Technology. A ferramenta cruza os requisitos das inovações com fatores locais, como infraestrutura digital, localização da propriedade, habilidades do agricultor, viabilidade econômica e particularidades do meio rural.
O modelo funciona como um instrumento de suporte para a tomada de decisão de produtores, startups, investidores do setor e gestores públicos.
Análise científica e escala de avaliação
Para construir o instrumento, a equipe analisou 814 publicações científicas, aprofundou 20 estudos de caso e avaliou 10 índices aplicados por instituições nacionais e internacionais. A metodologia permite identificar entraves que passam despercebidos em análises tradicionais, incluindo restrições de sinal de internet, relevo do terreno, consumo de água, descarte de resíduos e até questões jurídicas fundiárias.
O modelo foi validado por 22 especialistas das áreas de agronomia, engenharia, computação e estatística, que definiram os pesos das variáveis e estabeleceram uma escala de avaliação que varia de 1 a 5.
Testes práticos na piscicultura e na fruticultura
Na etapa de validação operacional, a ferramenta foi aplicada a duas tecnologias do ecossistema da Embrapa:
Aquicultura Certa: Aplicativo para gestão da piscicultura. Enquanto os desenvolvedores atribuíram nota 3 à solução, os potenciais usuários deram nota 4. A variação ocorreu devido à percepção distinta sobre as condições de infraestrutura nas propriedades.
Coletor inteligente de frutas: Equipamento acoplado a sacolas de colheita para contagem automática e identificação de árvores mais produtivas. O sistema recebeu nota 4 de ambos os grupos, impulsionado pela baixa dependência de infraestrutura externa e pelo uso de comunicação via Bluetooth.
Aprimoramento e suporte a políticas públicas
Os pesquisadores pretendem realizar novas rodadas de teste antes de transformar a metodologia em uma plataforma digital aberta. Os próximos ajustes devem incorporar aspectos como facilidade de uso do sistema e impactos no bem-estar animal.
Além de orientar agricultores e reduzir riscos de investimentos em novas ferramentas por parte de startups, o instrumento apresenta potencial para subsidiar políticas públicas. Ao diagnosticar falhas de conectividade e falta de assistência técnica, a metodologia pode auxiliar o governo a direcionar recursos de forma estratégica para a inclusão digital no campo.
O Semear Digital é apoiado pela Fapesp e sediado na Embrapa Agricultura Digital, em Campinas (SP).