Uma parceria entre a Unesp (Universidade Estadual Paulista), o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) resultou em um método inovador para detectar danos por geadas. A ferramenta combina inteligência artificial (modelos matemáticos) com imagens de satélite (sensoriamento remoto).
O objetivo principal é identificar, de forma rápida e precisa, os prejuízos causados pelo frio intenso nas lavouras de milho, além de estimar a área exata ocupada pela plantação. Segundo os cientistas, a inovação oferece agilidade ao poder público e ao mercado. Com dados mais rápidos, é possível corrigir previsões de volume de safra antes mesmo da colheita. Isso impacta diretamente o monitoramento da oferta do grão e a formação de preços para o consumidor.
A tecnologia também surge como uma aliada para o setor de seguro rural e para o planejamento do próprio produtor após eventos climáticos extremos.
Testes no "laboratório" a céu aberto
O estudo utilizou a mesorregião Oeste do Paraná como campo de prova. A escolha não foi aleatória: a região é uma das maiores produtoras de grãos do país e sofre com frequentes ondas de frio. Os pesquisadores analisaram dados da safra 2020/2021. Naquele ciclo, a região enfrentou dois episódios severos de geada, em maio e junho.
A precisão da nova ferramenta surpreendeu ao ser comparada com os dados oficiais. O método estimou que a área de milho segunda safra na região era de 740.007 hectares. O número é 1,7% superior aos registros governamentais da época, indicando uma capacidade de rastreio altamente detalhada.
Sobre os danos climáticos, a tecnologia apontou que as geadas afetaram 69,6% da área total de milho plantado na região. Deste total, 3,5% foram atingidos no primeiro episódio (maio) e 66,1% na segunda ocorrência (junho), que foi mais intensa. Os dados se alinharam com relatórios do Deral (Departamento de Economia Rural do Paraná), que na época classificou quase 60% da colheita como de qualidade ruim devido ao clima.
O peso da safrinha no Brasil
A tecnologia chega em um momento crucial para o agronegócio brasileiro, que depende cada vez mais da chamada "safrinha". Antigamente, o cultivo realizado após a colheita de verão (a safra principal) era marginal. Hoje, o cenário mudou drasticamente graças à tecnologia de sementes e manejo de solo.
Dados do projeto MapBiomas mostram que a área plantada "fora de época" triplicou desde o ano 2000 no Brasil. O milho é o protagonista desse ciclo, respondendo por 62,2% do volume da segunda safra em 2024. No entanto, o risco climático é maior. Como o plantio ocorre entre o verão e o outono, o desenvolvimento da planta pode coincidir com as estações mais frias do ano, aumentando a exposição às geadas. Em 2021, por exemplo, uma seca inicial atrasou o plantio da soja e, consequentemente, "empurrou" o ciclo do milho para dentro do inverno, gerando os prejuízos detectados pelo estudo.
Monitoramento em tempo real
O grande diferencial do projeto é a possibilidade de antecipar cenários. Michel Eustáquio Dantas Chaves, professor da Unesp e primeiro autor do artigo publicado na revista científica Remote Sensing Applications, destaca a meta da equipe. "A nossa meta é ser capazes de mapear culturas e identificar problemas ainda durante o período da safra", explica o pesquisador.
Para Chaves, essa agilidade é fundamental para a tomada de decisão porteira adentro. "Isso nos permitirá colaborar com os órgãos de planejamento e auxiliar os produtores a tomarem decisões antes da colheita", conclui. O estudo contou também com a colaboração da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, reforçando o caráter global da pesquisa aplicada ao campo brasileiro.