A aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia encerrou uma maratona diplomática de 25 anos, mas o mercado deve calibrar as expectativas quanto aos resultados imediatos. Para Fabio Ongaro, economista e vice-presidente de finanças da Câmara Italiana de Comércio de São Paulo (Italcam), os efeitos econômicos mensuráveis do tratado só devem ser sentidos, na prática, entre dois e quatro anos após a entrada em vigor. Segundo Ongaro, o acordo marca o início de uma fase complexa de implementação. O texto deixa o campo das negociações políticas e passa a exigir ajustes práticos nas cadeias produtivas.
Segundo Ongaro, é fundamental dissipar a ilusão de que as mudanças ocorrerão da noite para o dia. O processo envolve não apenas a redução de tarifas, mas uma profunda adaptação regulatória e logística. Ele explica que o cronograma de dois a quatro anos é o tempo necessário para que as tarifas caiam progressivamente e para que novos contratos comerciais amadureçam. No entanto, os ganhos estruturais mais robustos devem demorar um pouco mais. O economista estima que a consolidação plena dos benefícios ocorra entre sete e dez anos.
Esse é o período previsto para que a maior parte das barreiras tarifárias (impostos de importação e exportação) e não tarifárias (regras sanitárias e técnicas) seja efetivamente eliminada ou reduzida. Do ponto de vista macroeconômico, o impacto no Produto Interno Bruto (PIB) não será explosivo, mas consistente. Estudos de organismos multilaterais indicam que o Brasil pode registrar um acréscimo de 0,3% a 0,5% em seu PIB. "Não se trata de um salto extraordinário de crescimento, mas de uma elevação permanente de eficiência econômica, com efeitos cumulativos ao longo do tempo", avalia Ongaro.
O impacto no agronegócio brasileiro
Para o Brasil, o potencial transformador do acordo concentra-se fortemente no setor agropecuário. No curto e médio prazo, o agronegócio exportador será o grande beneficiado. As estimativas apresentadas pelo especialista indicam que as exportações agrícolas para a União Europeia podem aumentar entre € 8 bilhões e € 12 bilhões por ano após a plena implementação.
Os produtos brasileiros que devem ganhar mais competitividade no mercado europeu incluem:
Carne bovina e de frango;
Açúcar e etanol;
Suco de laranja;
Alimentos processados.
Esse movimento deve reforçar o superávit comercial do bloco sul-americano, trazendo mais dólares para a economia brasileira e ampliando a receita externa dos produtores rurais.
Indústria e importação de tecnologia
Se o agro vende mais, a indústria europeia também ganha espaço. O acordo é estratégico para a União Europeia, que busca ampliar mercados para seus produtos manufaturados. Setores como automóveis, autopeças, químicos e farmacêuticos, que hoje enfrentam tarifas de 20% a 35% para entrar no Mercosul, terão o caminho facilitado. Ongaro ressalta, porém, que isso não é necessariamente ruim para o Brasil. A redução do custo de importação de máquinas e bens de capital (equipamentos usados na produção) pode elevar a produtividade nacional.
Com acesso a tecnologia europeia mais barata, a indústria e o próprio campo brasileiro podem se modernizar mais rapidamente, integrando-se melhor às cadeias globais de valor.
Desafios geopolíticos e protecionismo
Apesar do avanço, o acordo ainda enfrenta resistências, especialmente de setores agrícolas de países como França e Irlanda. Para o vice-presidente da Italcam, essa postura vai além do simples protecionismo. Ele avalia que se trata de uma defesa de modelos produtivos que dependem de subsídios estatais. A resposta da Europa tem sido acelerar recursos da Política Agrícola Comum para compensar seus produtores. "A abertura comercial exige amortecedores sociais e políticos para ser sustentável", pondera o economista.
Para a Europa, o tratado também serve como uma ferramenta geopolítica. O bloco busca reforçar sua presença na América do Sul para competir com a influência crescente dos Estados Unidos e da China na região.
Oportunidade de industrialização
Em sua análise final, Fabio Ongaro destaca que o acordo não cria "vencedores automáticos". O sucesso dependerá da estratégia adotada pelo Brasil. Para o país, o tratado representa uma oportunidade rara de ir além da exportação de matérias-primas brutas (commodities).
A convergência de regras ambientais e sanitárias funcionará como um vetor de modernização institucional. Isso forçará o Brasil a ganhar eficiência. "Se será apenas uma janela exportadora ou uma plataforma de industrialização e investimento dependerá menos do texto do acordo e mais das escolhas políticas e econômicas feitas a partir dele", conclui o especialista.