A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord suspenda preventivamente a funcionalidade de transmissão ao vivo (Go Live) e o compartilhamento de tela em todo o Brasil. A medida cautelar foi adotada após a repercussão de crimes graves envolvendo crianças e adolescentes na plataforma. A empresa tem prazo de três dias para cumprir a determinação, sob pena de multas que podem alcançar R$ 50 milhões.
A decisão ocorre no rastro da Operação Lívia, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em conjunto com o Ministério da Justiça. As investigações apuram a atuação de grupos criminosos que coagiam menores em salas fechadas a praticarem automutilação, atos de violência extrema e suicídio.
O que é o Discord e como ele funciona
Criado em 2015 por Jason Citron e Stanislav Vishnevskiy, o Discord nasceu como uma ferramenta de comunicação voltada para praticantes de jogos eletrônicos (gamers). Com o tempo, a plataforma se expandiu e passou a abrigar comunidades focadas em estudos, programação, trabalho e interesses diversos.
Com mais de 200 milhões de usuários ativos por mês no mundo, o serviço permite a troca de mensagens por texto, áudio e vídeo. Diferente de redes sociais abertas como o Instagram ou o TikTok, o Discord funciona por meio de servidores privados ou públicos — que funcionam como salas de bate-papo divididas em canais temáticos.
O recurso de transmissão ao vivo em salas fechadas tornou-se altamente popular entre adolescentes, que utilizam o espaço para conversar, jogar em grupo e assistir a vídeos juntos em um ambiente restrito a convidados.
Arquitetura fechada dificulta monitoramento
Foi justamente essa estrutura de salas privadas que acendeu o alerta das autoridades. Segundo a ANPD, o modelo técnico adotado pelo Discord impede que a própria empresa monitore o conteúdo transmitido em tempo real, dependendo quase exclusivamente de denúncias dos próprios usuários.
"A medida cautelar foi determinada diante de evidências robustas de que a empresa não adotou procedimentos razoáveis para prevenir e mitigar riscos de exposição, indução à violência, automutilação e suicídio de menores", destacou a ANPD.
A determinação não bloqueia o Discord de forma integral no Brasil — o segundo maior mercado da empresa —, mantendo liberadas as trocas de texto e as chamadas de voz.
Posicionamento da empresa e cenário internacional
Em nota oficial, o Discord declarou que mantém colaboração constante com o Ministério da Justiça e autoridades policiais brasileiras. A empresa afirmou ter tolerância zero contra a violência, ressaltando que atua proativamente desativando servidores suspeitos e fornecendo dados para a prisão de criminosos.
O cerco à plataforma não é exclusivo do Brasil. Em 2025, o estado norte-americano de Nova Jersey ingressou com uma ação judicial contra a empresa acusando-a de omissão diante de casos de aliciamento e exploração infantil.
A plataforma possui dez dias úteis para recorrer da decisão da ANPD e deverá comprovar novas ferramentas eficazes de proteção a menores caso queira reativar os recursos de vídeo no país.