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Legacy do acidente do voo 1907 ainda está em operação

29 set 2026 às 12:20

Vinte anos depois da colisão que matou 154 pessoas no voo 1907 da Gol, o avião que se envolveu no acidente continua voando. O Embraer Legacy 600 que colidiu com o Boeing 737 da companhia brasileira em 29 de setembro de 2006 sobreviveu ao impacto e permanece em operação.


A aeronave tem o número de série 14500965. Ao longo das duas décadas, mudou de proprietário, país, pintura e matrícula, mas o número de série permite identificar que é o mesmo avião envolvido no acidente.

Atualmente, o Legacy está registrado no México com a matrícula XA-FLY e aparece associado à operação da empresa FlyMex.


Registros públicos de aviação indicam que a aeronave realizou voos em setembro de 2026. Em 27 de setembro, por exemplo, há registro de um trajeto entre Sacramento, na Califórnia, e Hermosillo, no México.

A FlyMex utiliza o Legacy 600 em sua frota executiva. O modelo tem capacidade para até 13 passageiros e alcance de aproximadamente 6,3 mil quilômetros.


Avião passou por diferentes matrículas


Antes de ser entregue ao primeiro proprietário, o Legacy utilizava uma matrícula de testes da Embraer, PT-SFN.


Depois, foi adquirido pela empresa americana ExcelAire e recebeu o prefixo N600XL, que era a matrícula utilizada no dia do acidente.


Após permanecer apreendido no Brasil por cerca de quatro anos, o avião deixou o país em 2010. Nos Estados Unidos, passou por reparos e inspeções e posteriormente recebeu a matrícula N965LL, quando estava sob propriedade da Cloudscape Inc., de Delaware.


Já no México, a aeronave passou pelas matrículas XA-MHA, XA-VBB e, atualmente, XA-FLY.

Apesar das mudanças de registro e de operador, o número de série 14500965 permite identificar a aeronave envolvida na colisão com o voo 1907.


O acidente


Na tarde de 29 de setembro de 2006, o Legacy havia acabado de ser entregue pela Embraer à ExcelAire.

O N600XL decolou de São José dos Campos (SP) às 17h51 UTC, com destino final em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, e escala prevista em Manaus. A bordo estavam dois pilotos americanos e cinco passageiros.


No sentido contrário, seguia o voo Gol 1907, operado por um Boeing 737-800, de matrícula PR-GTD.

A aeronave havia decolado de Manaus às 18h35 UTC com destino ao Rio de Janeiro e escala em Brasília. Havia 148 passageiros e seis tripulantes a bordo.


Às 19h56 UTC, os dois aviões se encontraram na aerovia UZ6, próximo ao ponto conhecido como NABOL. As aeronaves estavam no nível de voo FL370, equivalente a aproximadamente 11,3 quilômetros de altitude.

As asas esquerdas dos dois aviões colidiram.


Legacy conseguiu pousar após a colisão


O Legacy sofreu danos na asa esquerda, no estabilizador horizontal e no profundor, além da perda de grande parte do winglet.


Apesar dos danos, o avião permaneceu controlável. Os pilotos conseguiram realizar um pouso de emergência no Campo de Provas Brigadeiro Veloso, conhecido como Base do Cachimbo.

Os sete ocupantes do Legacy sobreviveram.


No Boeing da Gol, a situação foi diferente. O 737 perdeu parte da asa esquerda, ficou incontrolável e acabou atingindo a floresta no norte de Mato Grosso.


Nenhuma das 154 pessoas a bordo sobreviveu.


O acidente foi, à época, o mais letal da história da aviação brasileira. Menos de um ano depois, o número seria superado pelo acidente com o voo TAM 3054, que matou 199 pessoas em Congonhas.


Investigação apontou sequência de falhas


A investigação do acidente levou mais de dois anos. O relatório final do Cenipa, divulgado em dezembro de 2008, apontou uma sequência de fatores envolvendo a operação do Legacy e o sistema de controle de tráfego aéreo.


O transponder do Legacy foi colocado inadvertidamente em modo de espera e deixou de transmitir sua altitude ao controle de tráfego. Os pilotos não perceberam a alteração.


A situação também comprometeu o funcionamento do TCAS, sistema de alerta destinado a identificar riscos de colisão entre aeronaves.


O relatório apontou ainda problemas relacionados à atuação dos controladores, à transferência entre setores, às comunicações e à percepção de que as duas aeronaves estavam voando em sentidos opostos na mesma altitude.


O NTSB, órgão americano responsável pela investigação de acidentes de transporte, apresentou uma avaliação com diferenças em relação ao relatório brasileiro e atribuiu maior peso às falhas relacionadas ao controle de tráfego aéreo.


O acidente contribuiu para expor problemas no sistema de controle do espaço aéreo brasileiro e ocorreu durante o período que ficou conhecido como apagão aéreo.


Pilotos foram condenados no Brasil


Os pilotos do Legacy, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, foram processados no Brasil.

Após uma longa disputa judicial, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região fixou a pena em 3 anos, 1 mês e 10 dias de detenção, em regime aberto. A decisão foi posteriormente mantida pelo Superior Tribunal de Justiça.


O processo transitou em julgado, e a Procuradoria-Geral da República chegou a solicitar cooperação dos Estados Unidos para a execução da pena.


Os dois pilotos permaneceram nos Estados Unidos.


Duas décadas depois


Enquanto as consequências judiciais e históricas do acidente permanecem ligadas ao episódio que marcou a aviação brasileira, o Legacy envolvido na colisão seguiu uma trajetória diferente.


A aeronave foi reparada, passou por diferentes proprietários e registros e, atualmente, continua realizando voos no México, duas décadas depois de sobreviver à colisão que provocou a morte de 154 pessoas.

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