O desdobramento da investigação sobre o suposto esquema de "rachadinha" no gabinete de um parlamentar de Londrina ganhou novos contornos com a divulgação de áudios que sugerem um acerto financeiro sistemático. Nas gravações, o empresário que recebia os valores (pai da assessora que denunciou o caso) explica de forma direta que o dinheiro repassado mensalmente seria uma forma de ressarcimento por investimentos feitos durante o período eleitoral.
Diferente da versão apresentada pela defesa do vereador, que classificou os pagamentos como uma "transação particular" referente à venda de um veículo, os áudios indicam uma relação de "compromisso político" e controle sobre as vagas no gabinete. Em um dos trechos mais contundentes, o empresário detalha para a filha como funciona a dinâmica de ocupação dos cargos públicos e a expectativa de lucro sobre as nomeações. “Outro que entrar lá vai ter que me dar milhão! [...] O outro que ele colocar lá, eu vou abrir o cargo, ele vai colocar a Maria lá. A Maria vai ter que me dar mil. Você não está entendendo o combinado que eu tenho com ele?”, afirma.
O empresário reforça que o parlamentar teria um débito moral e financeiro com ele devido ao apoio na eleição, estimando que o retorno total do capital investido demoraria cerca de dois anos. “Eu coloquei dinheiro na campanha dele! Esse dinheiro não voltou pra mim ainda! [...] É coisa de homem! Nós não temos contrato, não foi nada no cartório! Foi de homem, acordo na política tem acordo!”, destaca nas gravações.
As conversas sugerem que, na visão do empresário, os cargos de assessoria não pertenciam à estrutura da Câmara Municipal, mas sim a ele, como parte do pagamento pela dívida de campanha. Ele afirma que, independentemente de quem ocupasse a vaga, o dinheiro deveria chegar às suas mãos: “O cargo é meu, o compromisso comigo você honrou, o dinheiro você vai ter que passar... E se eu colocar você lá ou não lá, ele vai ter que passar o dinheiro do mesmo jeito. Ele tem que me passar!”.
O material também revela a postura do empresário em relação ao Poder Legislativo e suas ambições futuras, focando na rentabilidade que a influência política pode proporcionar. “Minha pretensão política não é ficar em gabinetezinho. Eu quero ganhar dinheiro, não vou trabalhar, eu... eu sei como fazer”, relata.
Os áudios agora fazem parte do inquérito conduzido pelo Ministério Público, que investiga crimes de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. O levantamento do sigilo dos autos permite que a sociedade acompanhe o desfecho do caso, que abala a estrutura política local.
Em nota, a defesa do vereador e de dois assessores informou que "todos os envolvidos já prestaram esclarecimentos de forma colaborativa junto ao Ministério Público e permanecem à disposição para apresentação de documentos.
Esclarece-se que não houve, em nenhum momento, qualquer solicitação de valores por parte do vereador, tampouco desvio de recursos públicos, inexistindo elementos que sustentem tais alegações.
Eventuais situações mencionadas dizem respeito a relações de natureza estritamente privada entre particulares, sem qualquer vínculo com o exercício da função pública.
A defesa confia que os fatos serão devidamente esclarecidos no âmbito das instituições competentes".