A defesa da família do adolescente Murilo Dias, de 15 anos, morto durante uma intervenção da Guarda Municipal de Londrina, recorreu ao Poder Judiciário e ao Ministério Público para denunciar o descumprimento parcial da determinação judicial que exigia a entrega das gravações das câmeras corporais dos agentes envolvidos na ação.
Segundo os advogados da família, os arquivos anexados ao processo retratam apenas movimentações ocorridas a partir das 22h do dia 31 de julho, cerca de duas horas após o horário em que o confronto foi registrado no boletim de ocorrência, por volta das 20h. A defesa sustenta que a omissão do trecho que mostra a abordagem impede o esclarecimento dos fatos e alegou que a anexação de vídeos do pai do jovem na Central de Flagrantes busca criar uma "cortina de fumaça" para desviar o foco da atuação dos guardas.
Diante do impasse, a representação jurídica solicitou a fixação de multa diária por descumprimento de ordem judicial, a apuração de eventual crime de desobediência e a intervenção do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Criam Organizado) para assumir o controle externo das investigações.
O episódio teve início após uma discussão em uma pizzaria na área central, seguida por uma perseguição policial que terminou com a colisão da caminhonete em que estavam pai e filho contra um poste no cruzamento das ruas Gomes Carneiro e Da Lapa.
A Guarda Municipal alegou que o adolescente estava armado e reagiu à abordagem, sendo alvejado no local. A família nega a existência de confronto e pontua que o jovem sofria de epilepsia, condição que limitaria a capacidade de manusear ou apontar uma arma contra a equipe policial. Procurada pela reportagem, a instituição preferiu não conceder entrevista.
NOTA OFICIAL
A defesa técnica dos guardas municipais envolvidos esclarece que a ausência de gravação do momento dos disparos possui uma explicação objetiva.
A equipe era formada por quatro agentes, mas apenas um deles portava câmera corporal. O guarda municipal que efetuou os disparos não utilizava o equipamento. Além disso, a equipe deparou com uma ocorrência já em andamento, após receber a notícia de que havia ocorrido um disparo de arma de fogo, e iniciou imediatamente o acompanhamento do veículo suspeito.
Tratava-se de uma situação crítica e de rápida evolução, que exigia a condução da viatura, comunicação constante entre os agentes e resposta imediata aos riscos apresentados. Por esse motivo, a única câmera corporal disponível foi acionada posteriormente e não registrou o momento do confronto.
A ausência dessa filmagem não decorre de corte ou edição. Os agentes não realizaram qualquer manipulação dos arquivos. As imagens foram extraídas e encaminhadas oficialmente pela Prefeitura de Londrina, responsável pelo sistema de câmeras corporais e pela certificação de que todo o conteúdo disponível foi integralmente entregue às autoridades.
Quanto à dinâmica da ocorrência, os elementos já documentados demonstram que a situação de risco não foi criada pela Guarda Municipal. Antes do acompanhamento, o pai do adolescente efetuou um disparo de arma de fogo, agrediu uma mulher e fugiu em alta velocidade. Durante a fuga, colidiu com um automóvel, atingiu uma motocicleta e, mesmo após os acidentes, continuou em deslocamento até colidir contra um poste.
Os registros também apontam que o condutor apresentava sinais de embriaguez. Na Central de Flagrantes, ele chegou a rir e frustrou repetidas tentativas de realização do teste do etilômetro. A arma anteriormente utilizada pelo pai terminou nas mãos do próprio filho adolescente.
Na abordagem final, após a colisão contra o poste, os guardas determinaram que os ocupantes saíssem do veículo. O adolescente, contudo, desobedeceu às ordens de abordagem e às determinações para que largasse a arma.
Diante da iminência de uma agressão armada, o guarda municipal efetuou os disparos para cessar o risco. A reação foi interrompida assim que a ameaça deixou de existir.
A defesa lamenta profundamente o desfecho da ocorrência, mas reafirma que a atuação da equipe observou a legislação e a técnica policial diante de uma ameaça concreta, atual e potencialmente letal.