Em cima das mesas, colocadas lado a lado, notebooks são manejados por vinte mulheres de diferentes idades, alunas no curso gratuito Tecnologia em Mídias para Elas, realizado pelo Coletivo Black Divas, em parceria com o Ministério das Mulheres. Até o final do ano, a iniciativa prevê capacitar 110 mulheres negras em diferentes áreas.
Nas primeiras aulas, as alunas aprenderam a ligar os computadores, conectar cabos, criar contas próprias de e-mail e fazer currículo. No dia em que acompanhamos a aula, uma quinta-feira à noite, o desafio proposto pelo instrutor, o especialista em sistema de informação Leandro Marques, uniu a habilidade de digitação à vivência das alunas: elas deviam escrever um texto de, no mínimo, dez linhas sobre a própria vida. Marques levou um pen drive de instalação do programa, para driblar eventuais dificuldades com a internet, como havia acontecido na aula anterior, quando um temporal caiu em Londrina.
A parceria entre o Black Divas e o Ministério das Mulheres foi viabilizada por meio de emenda parlamentar e conta, ainda, com a doação dos computadores pela Tata Consultancy Services (TCS). Além de informática, estão sendo ofertados gratuitamente, para mulheres negras de regiões periféricas, os cursos de trancista e de inglês básico.
Sonhos postos à mesa
Após o desafio de escreverem sobre si mesmas, as alunas foram convidadas a ler os próprios textos em voz alta. Eles traziam relatos de dificuldades, superação e fé no futuro. Mãe de uma menina de três anos, Nathânia Sabrina Martinussi, de 24 anos, expressou a vontade de trabalhar por conta própria.
“Tenho experiência principalmente como atendente, mas também já trabalhei como auxiliar de cozinha. Eu sei fazer pudim e sempre quis ter um negócio pra mim. Estou aprendendo a fazer bolo agora”, conta. Ela acredita que o curso pode ajudá-la a entender melhor o funcionamento de ferramentas digitais e aplicativos, abrindo oportunidades de venda. “Quero dar do bom e do melhor para a minha filha”, planeja.
O valor do aprendizado
Leidinalva da Silva, 40 anos, conhece bem o valor do estudo e da capacitação. Ela só concluiu o ensino básico aos 22 anos e viu sua vida mudar depois disso. “Meu currículo ficou cem por cento. Porque antes, como eu vim do sítio, eu falava do trabalho na roça, que colhia café, colhia algodão, laranja e perguntavam ‘Mas cadê seu currículo?’. Não tinha”, lembra ela.
Com o diploma do Ensino Médio em mãos, Leidinalva fez outros cursos de capacitação, como cozinheira e cuidadora de idosos. Também iniciou um de técnica em enfermagem, mas parou durante a pandemia da covid-19. Ainda deseja retomar.
O curso oferecido pelo Coletivo Black Divas tem ajudado para além da informática “em muita coisa”, ela diz. “Por exemplo, eu tinha o costume de escrever tudo abreviado, porque hoje em dia é tudo assim, né, abreviado. Aqui eu aprendi que não posso, tenho que escrever certinho, letrinha por letrinha, colocar vírgula, colocar acento. Nossa, pra mim está sendo ‘top’”.
Parceria reflete trabalho do coletivo
A viabilização da parceria com o Ministério das Mulheres, por meio da emenda de Carol Dartora, reflete a seriedade do trabalho e a expertise desenvolvida pelo Instituto Coletivo Black Divas em seus mais de 20 anos de existência.
“Essa emenda representa o reconhecimento de um trabalho que o Black Divas vem desenvolvendo há muitos anos nos territórios, dialogando diretamente com as perspectivas, com os sonhos e com as necessidades das mulheres negras”, enfatiza a coordenadora do coletivo, Sandra Mara Aguilera.
Ela explica que quando falamos de mulheres negras em situação de vulnerabilidade os contextos são variados e podem incluir, além do racismo, a desigualdade social, o desemprego, a violência doméstica. Por isso, oferecer capacitação para essas mulheres vai além de ensinar uma profissão.
“É abrir uma porta que, muitas vezes, esteve trancada. Nós acreditamos que para essas 110 mulheres essa formação pode significar conhecimento, autonomia, possibilidade de sonhos, de renda, trabalho com a autoestima delas e novas perspectivas para suas famílias”, acrescenta Sandra. Para ela, é justamente onde o poder público precisa atuar: onde a desigualdade cria barreiras.
“Nós do coletivo acreditamos que o conhecimento é uma das formas de transformação social mais poderosas. Quando uma mulher negra se qualifica e passa a ter condições de gerar essa própria renda ela movimenta a própria vida e impacta sua família, seu território e comunidade. Então essa emenda chega para 110 mulheres, mas o impacto que ela pode produzir vai muito além de 110 histórias”.
Oportunidade para quem tem vontade
Aos 35 anos, Mariane Oliveira lembra da infância sofrida, em um barraco, e das dificuldades da mãe para manter os três filhos. Lembra, também, da vontade que sentia de fazer cursos de capacitação para validar conhecimentos que ela foi adquirindo ao longo dos anos de trabalho. Por isso, quando a coordenadora do Black Divas contou da oportunidade de ofertar o curso, ela fez o que foi preciso para abraçar. Além de aluna, está atuando como monitora, apoiando as companheiras. Na turma está sua mãe, de 54 anos.
“Ela já está achando que sabe se virar. Antes, pedia ajuda pra tudo - pra fazer pix, por exemplo. Por mais que aqui seja computador e não celular, desperta a curiosidade. Agora ela diz ‘Vou tentar aqui, se não conseguir, te aviso’”, conta Mariane, orgulhosa. “Muita gente tem vontade e quer aprender, mas não tem oportunidade. Ainda mais pessoas de comunidades carentes”,’conclui.
Leandro Marques trabalha como scrum master na TCS em Londrina, onde compõe um grupo de trabalho étnico-racial que atua tanto pelo acesso de pessoas negras dentro da empresa quanto em atividades com a comunidade externa. Especialista em sistema da informação, ele encara, pela primeira vez, o desafio de ser professor.
“Um dos meus propósitos de vida é que quando você quer algum tipo de mudança, a mudança tem que começar por você. É isso que me move”, define. Marques espera ser vetor de mudanças para essas mulheres. “Espero que elas cheguem ao mercado de trabalho. Seria muito gratificante algumas delas conseguirem trabalhar na TCS; seria bem legal”.