Cidade

Crime e abandono: o "fantasma" de concreto que assombra a cultura de Londrina há quase 20 anos

02 abr 2026 às 09:55

O que deveria ser o maior símbolo da arte em Londrina hoje é um retrato vivo do descaso e da insegurança. O esqueleto do Teatro Municipal, localizado na região central, virou ponto de consumo de drogas e abrigo improvisado para pessoas em situação de rua. A cena de homens queimando fios para retirar cobre em meio ao concreto inacabado tornou-se comum para quem passa por ali. O local, que deveria receber aplausos, agora ecoa a violência: somente neste ano, um homem foi agredido a pedradadas durante a madrugada e outros dois ficaram feridos após caírem da laje da construção.


A estrutura é um "fantasma" que assombra a cidade há quase 20 anos. O projeto, anunciado com pompa em 2007 para receber 2.400 pessoas, está com as obras paralisadas desde 2014 por falta de verbas e continuidade. Com um custo estimado em 80 milhões de reais, o complexo de 22 mil metros quadrados teve apenas uma pequena parte executada. Dentro do prédio, imagens registradas pela equipe da Tarobá revelam um cenário preocupante: dormitórios montados com panos e sujeira espalhada por todos os cantos, transformando o patrimônio público em um ponto de criminalidade monitorado pela Guarda Municipal.


A classe artística de Londrina não esconde a frustração. A coordenadora do Festival de Dança, Danieli Pereira, relembra que o único "espetáculo" realizado no local foi um protesto de artistas em meio à terra e ao concreto, logo após a interrupção dos trabalhos. Apesar do tempo sob sol e chuva, a Secretaria de Cultura afirma que 90% da estrutura física ainda está em boas condições. O secretário Marcão Kareca sinaliza que há movimentações para retomar as obras, enquanto a equipe de transição da nova gestão municipal afirma acompanhar o caso de perto.


Para uma cidade que já foi referência nacional com grandes festivais nas décadas de 80 e 90, o abandono do teatro representa uma ferida aberta na identidade cultural de Londrina. Existe uma demanda reprimida por espaços adequados e, para quem vive da arte, o sentimento é uma mistura de cansaço e uma teimosa esperança. Enquanto o poder público não define o futuro do gigante de concreto, o Centro de Londrina segue convivendo com o risco e o desperdício de um sonho que nunca saiu do papel.

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