Antes de o mundo caber na palma da mão, ele estava fincado no concreto. Por décadas, o orelhão foi símbolo da comunicação no Brasil e ponto essencial de conexão humana. Era ali que ligações tinham hora marcada, onde se esperava a chamada tocar e onde cada palavra precisava ser medida, porque os créditos acabavam rápido.
Em um tempo em que ter telefone fixo em casa custava caro e podia levar anos para ser instalado, o telefone público cumpria um papel fundamental. O tilintar das fichas, depois substituídas pelos cartões telefônicos, as chamadas a cobrar e as filas improvisadas ao redor do aparelho fazem parte da memória de milhões de brasileiros. O orelhão ensinou a esperar, a resumir recados e, acima de tudo, a ouvir.
Agora, esse ícone da era analógica começa a desaparecer definitivamente das ruas. A retirada dos telefones públicos teve início após o fim das concessões do serviço de telefonia fixa no país. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ainda existem cerca de 38 mil orelhões espalhados pelo território nacional, mas a remoção será intensificada a partir deste mês.
O processo ocorre porque, em 2025, se encerraram as concessões das cinco empresas responsáveis pelos aparelhos. A extinção, no entanto, não será imediata em todos os locais. A partir de janeiro, começa a retirada em massa de carcaças e equipamentos já desativados. Os orelhões só devem ser mantidos, temporariamente, em cidades onde não há cobertura de telefonia móvel, e apenas até 2028.
A retirada vem acontecendo de forma gradual nos últimos anos. Como contrapartida, a Anatel determinou que as operadoras redirecionem os recursos antes destinados à manutenção dos telefones públicos para investimentos em banda larga e telefonia móvel, acompanhando a mudança no perfil de consumo da população.
Para muitos, o desaparecimento dos orelhões marca o capítulo final de um tempo que as novas gerações só conhecem por relatos. Justamente por isso, há iniciativas para preservar esses equipamentos como memória histórica. Em Cascavel, a Secretaria de Cultura pretende enviar um ofício à operadora de telefonia solicitando a cessão de um orelhão localizado em frente ao Centro Cultural Gilberto Mayer, para que o aparelho seja incorporado ao patrimônio cultural do município.
Mais do que um telefone, o orelhão se despede como um símbolo de uma época em que a comunicação era mais lenta, mas carregada de significado.