Uma sequência estarrecedora de violência contra a mulher atingiu o Paraná em um intervalo de apenas 11 dias. Ao todo, seis feminicídios foram registrados em diferentes regiões do estado, expondo com crueza a vulnerabilidade feminina tanto em ambientes domésticos — mesmo com o amparo de medidas protetivas — quanto em espaços de trabalho e no meio da rua. A sucessão de crimes reacende o debate sobre a limitação das respostas puramente legislativas e policiais diante de um problema fundado no machismo estrutural.
Em Jandaia do Sul, Gláucia Pinheiro foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro na frente da própria filha adolescente. O agressor, que não aceitava o término do relacionamento ocorrido há alguns meses, tirou a própria vida em seguida. Gláucia possuía uma medida protetiva vigente que não foi suficiente para impedir a tragédia. Quadro semelhante ocorreu em Curitiba, onde Sebastiana Santos, de 53 anos, foi morta a tiros dentro da lanchonete da qual era proprietária, também por um ex-companheiro contra quem mantinha ordem judicial de afastamento.
A barbárie também alcançou o interior do estado com marcas de extrema crueldade. Em Maringá, Gassi Paola, de 37 anos, foi morta com 14 facadas dentro de seu apartamento; o crime teria sido praticado pelo companheiro enquanto o filho do casal, um bebê de apenas oito meses, chorava ao lado do corpo. Em Ramilândia, a menina Rebeca Yasmin, de cinco anos, foi morta pelo próprio pai, que declarou ter cometido o crime para atingir a mãe da criança — dinâmica enquadrada pela Justiça como vicariocídio e classificada pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) como feminicídio. Outro caso foi confirmado no município de Nova Aurora, onde a vítima foi identificada, mas teve a identidade preservada pelas autoridades.
O episódio mais recente ocorreu em Londrina e chamou a atenção por romper o padrão em que há vínculo prévio entre vítima e agressor. Thaissa Gabriely Marques trabalhava com panfletagem em frente a uma academia na Zona Oeste da cidade quando aceitou mostrar as instalações do local para um homem desconhecido. Segundo as investigações, o indivíduo tentou estuprá-la e, diante da reação de Thaissa, a esfaqueou cerca de 40 vezes. O caso acendeu o sinal de alerta entre pesquisadores por demonstrar que a violência letal pode se manifestar de forma imprevisível no cotidiano profissional.
Para a socióloga Silvana Mariano, coordenadora do Lesfem, a onda de ataques é assustadora e explicita que apenas discutir o enquadramento penal das condutas não garante proteção real às mulheres. Segundo a pesquisadora, o aumento de penas e o reforço do policiamento convencional são insuficientes se não acompanhados por uma mudança histórica profunda no comportamento de homens que tratam a vida e as escolhas das mulheres como bens à sua disposição.
A especialista pontua que a ocorrência de crimes por desconhecidos, como no caso de Londrina, exige uma revisão urgente nos protocolos de segurança institucional e empresarial, evitando a responsabilização da vítima ou a busca por sinais prévios em cenários onde não havia indícios de risco. Para a coordenação do laboratório, a cultura machista continua criando potenciais feminicidas e mantendo o público feminino em permanente vulnerabilidade, independentemente do local em que estejam.