A notícia da prisão de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, ocorrida no último sábado (3), ecoou com força em um endereço específico de Londrina: o Residencial Flores do Campo. Na ocupação urbana localizada na zona norte da cidade, onde vivem centenas de imigrantes venezuelanos, o clima é de uma vigília silenciosa. Enquanto o presidente Donald Trump anuncia que os EUA devem governar o país vizinho temporariamente, quem reconstruiu a vida no interior do Paraná divide-se entre a esperança de dias melhores e o receio da instabilidade militar.
Para Karina Devera, que atua como cabeleireira e manicure em Londrina, a queda do regime representa mais do que um fato político; é o desfecho de uma história de privações. Na Venezuela, ela também era proprietária de um salão de beleza, mas a crise econômica tornava a sobrevivência impossível.
Hoje, estabelecida no Flores do Campo, ela celebra a dignidade conquistada no Brasil. Embora a operação militar traga incertezas, o sustento garantido pelo trabalho em Londrina é o que mantém a rede de apoio familiar viva.
Memórias de escassez e o papel da fé
A rede de apoio no assentamento é fortalecida por lideranças religiosas como o pastor Luís Rodriguez, que acompanha de perto a angústia dos fiéis com as notícias que chegam de Caracas. Segundo os relatos colhidos na comunidade, a ditadura instalada desde 2013 impedia qualquer tipo de confronto ou questionamento ao governo.
A professora Yane Salazar, que deixou a Venezuela há cinco anos fugindo da fome e da precariedade na saúde, lembra com dor do que deixou para trás. Para ela, os bombardeios e o apagão relatados em Caracas no último final de semana são feridas abertas, mas necessários para o fim de um ciclo.
O futuro sob tutela estrangeira
A operação americana, que resultou na detenção de Maduro e sua esposa por acusações de narcoterrorismo, coloca a Venezuela sob um estado de emergência e uma provável governança temporária dos EUA. No Flores do Campo, a maioria dos moradores compartilha de um sentimento comum: o desejo de visitar a terra natal, mas a decisão firme de permanecer em Londrina.
A instalação definitiva das famílias no residencial, que recentemente passou por processos de discussão sobre regularização, demonstra que o Flores do Campo não é apenas um abrigo temporário, mas o novo lar de uma comunidade que, mesmo de longe, reza pela paz no país que deixou para trás.