Ciência e saúde

"Tudo indica ser a segunda onda da Covid-19", diz infectologista da UEL

25 nov 2020 às 10:32

Passados nove meses da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, no final de fevereiro, a população demonstra um comportamento que mistura desdém e desinformação sobre a gravidade da pandemia que já custou mais de 160 mil vidas. Depois de experiências traumáticas de fechamento de serviços, shoppings, comércio e cancelamentos de todos tipos de eventos, o país assiste surpreso nova expansão da doença.  Em Londrina, somente na penúltima semana de novembro, foram registradas 184 novas confirmações da doença em um único dia. Desde o início da pandemia já foram 342 vítimas da Covid-19.

Todas estes fatos acontecem quando autoridades de saúde imaginavam ter vencido o primeiro round contra a doença. No Paraná cerca de 290 leitos exclusivos foram desativados em várias regiões. A medida, no entanto, precisou ser revista frente ao surpreendente crescimento da doença, a começar por Curitiba, onde foi registrado aumento na procura por atendimento e internação.

Para a médica infectologista Jaqueline Dario Capobiango, professora do Departamento de Pediatria e Cirurgia Pediátrica da UEL, que integra a Comissão de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital Universitário (HU/UEL), a pandemia de Covid-19 demonstrou ser dinâmica e vários são os fatores que interferem na progressão do número de casos. Ela atesta que o país vive o que se pode definir como segunda onda da doença, provocada pelo afrouxamento das medidas de contenção do vírus pela população, principalmente associado aos feriados recentes, quando as pessoas fizeram viagens e reuniões em grupos.

“As medidas de prevenção são eficazes se associadas e realizadas por todos, portanto, tem que ser visto como um problema da comunidade. Uma pessoa no seu ambiente que não realize todas medidas pode comprometer a segurança de todas as outras”, afirma ela. Por outro lado, a experiência de tratamento desde a constatação do primeiro caso confirmado melhorou muito com estudos documentados, consultas precoces, uso de corticoide no momento adequado e a pronação do paciente (posição de bruços) para melhorar a oxigenação dos pulmões. 

Médica infectologista Jaqueline Dario Capobiango, professora do Departamento de Pediatria e Cirurgia Pediátrica (FOTO/Divulgação) 

Nesta entrevista a médica narra a sua experiência frente ao combate à doença no HU/UEL, unidade de referência para tratamento da Covid-19, comenta a expectativa da vacina e fala ainda sobre as decisões do Grupo de Trabalho do Coronavírus da UEL, responsável pelo Plano de Contingência para o retorno presencial dos servidores e a preocupação e medidas necessárias para o retorno das aulas presenciais.

Após a boa notícia do da desativação de leitos usados para Covid-19, a Secretaria de Estado já comunicou se a ocupação nos hospitais de referência chegar a 75%, a reabertura será necessária. Segundo a médica tudo indica que a segunda onda chegou, pois o número de casos voltou a aumentar, assim como os óbitos e apenas as medidas de prevenção associadas podem ajudar a contornar o problema. 

"As medidas de prevenção são mais eficazes se associadas e realizadas por todos, portanto, tem que ser visto como um problema da comunidade. Uma pessoa no seu ambiente que não realize todas medidas pode comprometer a segurança das outras. A segurança do retorno ao trabalho depende desta conscientização e com a fiscalização continuada, que pode ser feita pelas próprias pessoas", conta.

E quem achava que estava imune por já ter sido contaminado, a pneumologista dá o choque de realidade: a Covid-19 pode sim ser uma doença de reinfecção. "Acredita-se que as pessoas podem se reinfectar após três meses da doença, com variação deste tempo conforme a resposta imune individual."

A vacina já é quase uma realidade. Há muitas opções, mas para a médica ainda há muitos questionamentos, como a capacidade de produção em escala mundial. "Outra questão é a logística da administração, que envolve  a conservação adequada da vacina. Conforme o produto há necessidade de manter refrigeração entre menos 20 a menos 70 graus; temos dúvida quanto ao número de doses da vacina para garantir boa adesão para as doses subsequentes. E o quantitativo da equipe de saúde que tem que ser suficiente para administração e com acesso a áreas mais remotas. A expectativa é que a vacina possa ser distribuída para a população por etapas de prioridade. Tudo indica que teremos mais de uma vacina disponível sendo administrada e que será iniciada pelos idosos, pessoas com comorbidades e profissionais de saúde".

(com Agência UEL)