Instabilidade comercial entre potências e problemas na Argentina fazem moeda disparar no Brasil
No dia 30 de agosto deste ano, o dólar estadunidense chegou a ser cotado a R$ 4,143. Teria sido a maior alta da moeda estrangeira desde setembro de 2018, quando o Brasil vivia o clima pré-eleitoral. Isso teria acontecido porque, no começo deste mês, mais precisamente no dia 2 de setembro, o dólar voltou a bater o recorde de alta, sendo cotado a R$ 4,184, maior alta histórica.
E, acompanhando as movimentações da moeda comercial, também foi verificada uma acentuada alta do dólar turístico. Em algumas casas de câmbio da capital paulista, por exemplo, a moeda turística chegou a ser negociada a R$ 4,59 no fim de agosto.
Um dos principais impactos quando falamos das intensas variações e subidas do dólar estadunidense é quanto ao turismo internacional. Muita gente acaba desistindo de viajar para os Estados Unidos, por exemplo, para não ter que enfrentar as pesadas taxas da compra da moeda. O mesmo receio costuma ter quem usa cartão de crédito no exterior.
Muita gente acha que os motivos que levam à alta do dólar estão diretamente relacionados à política nacional, como, por exemplo, a crise na Amazônia e mesmo as constantes tensões para a aprovação da reforma da Previdência e de outras medidas, como o pacote anti-crime do governo federal. Contudo, desta vez, os principais culpados pela oscilação da moeda são estrangeiros.
Principais responsáveis são China e Estados Unidos
Os principais responsáveis pela alta do dólar são duas das maiores potências econômicas do mundo: a China e os Estados Unidos, que já há algum tempo têm duelado no campo comercial.
É importante lembrar que a tensão entre os dois países começou logo quando o Donald Trump concorria à presidência dos Estados Unidos e se agravou quando ele assumiu a Casa Branca.
Em 2018, por exemplo, o presidente estadunidense decidiu taxar alguns produtos chineses com o objetivo de favorecer a produção nacional. Na época, o mandatário também comentou que queria reduzir o déficit comercial para a China, ou seja, queria importar menos do país.
No começo de setembro, novas tarifas foram anunciadas pelo governo dos Estados Unidos. Dessa vez, seriam 15% de impostos a mais sobre calçados e produtos tecnológicos, como os aparelhos de TV de tela plana e os relógios inteligentes.
Os chineses responderam à medida protecionista estadunidense ameaçando tarifar novamente o petróleo vindo do país.
Desacordo está na Organização Mundial do Comércio
A disputa entre os dois países parece não arrefecer e a China acabou optando por processar os Estados Unidos por suas medidas protetivas na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Embora Washington e Pequim deixem claro que pretendem conversar sobre os impasses comerciais, os investidores temem que a crise se agrave e que nenhum acordo seja estabelecido entre as duas potências.
Por que isso impacta a cotação do dólar
Com a incerteza de um acordo entre China e Estados Unidos, os investidores preferem ser mais tímidos na aplicação de capitais e, além disso, também preferem investir em regiões de economia mais sólida. Ou seja, os países emergentes, como o Brasil, acabam sendo preteridos e, consequentemente, até a moeda nacional se desvaloriza.
Argentina também é ponto crítico
Outro ponto crítico para o Brasil entender a alta do dólar é a Argentina. O nosso vizinho do sul está vivendo momentos de tensão, com as prévias eleitorais e com os problemas de ordem econômica.
Politicamente, os argentinos vivem uma clima instável por causa da disputa presidencial. O candidato Alberto Fernández, que é apoiado e faz chapa com a ex-presidente do país, Cristina Kirchner, tem mais intenções de voto do que o atual presidente, Mauricio Macri.
No entanto, os investidores têm receio de que se a chapa de Fernández sair vencedora, eles não cumpram com a palavra e declarem moratória de toda a dívida argentina.
O próprio governo Macri chegou a declarar que retardará o pagamento de dívidas de curto prazo que tem com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Já as mais longevas, o presidente disse que tentará renegociar com o FMI.
É válido notar ainda que o presidente da Argentina também limitou as ações do mercado de câmbio. Pessoas físicas, por exemplo, só poderão comprar US$ 10 mil a cada mês. Outra medida emergencial adotada pelo presidente foi dar ao Banco Central argentino a autonomia para liberar ou não a exportação de dólares e metais.
O objetivo é tentar conter a desvalorização da moeda local, o peso. Mas, com isso, o país acaba impactando os vizinhos, já que os investidores também preferem fazer menos investimentos em regiões onde há instabilidade política e econômica.