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Bets viram maior motor do endividamento das famílias no Brasil, diz estudo

Estudo comparou a influência de diferentes fatores sobre dívidas das famílias
26 mar 2026 às 18:02
Por: UOL - João José Oliveira
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

As apostas online se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento.


O impacto das apostas superou o peso histórico dos juros. Um estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School revelou que as plataformas online são a principal causa das dívidas.


Estudo comparou a influência de diferentes fatores sobre dívidas das famílias. Para isso, os responsáveis pela pesquisa criaram indicadores que calculam os impactos de quatro condições: o peso do crédito sobre a renda, o patamar dos juros, o tempo das dívidas e as bets.


Resultado do estudo mostra que apostas se tornaram mais relevantes para causar endividamento. O coeficiente associado às apostas atingiu 0,2255, superando com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440), dos juros ao consumidor (0,0709) e do tempo de dívida (-0,0017).


Mesmo somados, os impactos de crédito e de juros são menores que o das bets. Segundo o Ibevar e a FIA, o impacto das apostas online é quase o dobro da soma dos dois fatores tradicionais, podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros já está embutido na dinâmica do crédito.

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"Ao longo do período analisado, observou-se uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento no Brasil. No entanto, após a entrada das apostas esportivas, legalizadas em 2018 e amplamente difundidas a partir de 2019, antes da regulamentação definitiva em 2023, a dinâmica da dívida ganhou novo impulso." - Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.


As famílias financeiramente vulneráveis sofrem o maior impacto. As despesas com jogos comprometem uma fatia maior da renda desse grupo, que acaba recorrendo a opções caras, como cartão de crédito e cheque especial.


"O padrão sugere deslocamento de recursos de atividades produtivas e poupança de longo prazo para apostas de retorno esperado negativo." - Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.


Mais de 100 milhões de brasileiros pagam juros de 100% ao ano. O presidente do BC (Banco Central) apontou que milhões pagam taxas de emergência. "No não consignado, chegamos em 49 milhões de pessoas que pagam 100% de juros ao ano. No cartão, temos 101 milhões", afirma Gabriel Galípolo.


Receita bruta total das bets autorizadas a operar no Brasil atingiu R$ 37 bilhões em 2025. O valor representa o total de apostas, excluindo os valores de prêmios pagos, montante sobre o qual recai a obrigação de que 12% sejam convertidos em destinações legais, segundo a SPA (Secretária de Prêmios e Apostas).

Indicadores negativos de crédito

Brasil tem os juros mais elevados em duas décadas. Mesmo após o BC promover, na semana passada, a primeira redução da taxa básica de juros no Brasil desde maio de 2024, a Selic segue no maior patamar desde julho de 2006.


Selic é referência para o mercado financeiro. É a partir dessa taxa que instituições financeiras definem quanto vão cobrar em empréstimos e financiamentos. Sobre a Selic, bancos e financeiras somam outros custos e condições, como impostos e margem de lucro, para definir a taxa final aos clientes. É por isso que, elevada, a Selic alimenta toda a cadeia de taxas no crédito do país.


Inadimplência dos brasileiros cresceu com juros elevados. Segundo o BC, a inadimplência das pessoas físicas piorou nos últimos 12 meses, subindo de 5,6% para 6,9% em janeiro. Parece pouco, mas essa diferença representa uma alta de 23%. Quando crescem os atrasos no pagamento de crédito, bancos e financeiras ficam mais seletivos na concessão de novas operações.


Comprometimento da renda atingiu patamar recorde. O percentual de 29,2% em janeiro superou a taxa de 27,5% de um ano antes. Nesse período, o endividamento das famílias também subiu, de 48,4% para 49,7%. Quanto mais dinheiro do orçamento já está comprometido com parcelas de empréstimos e financiamentos, maior é o risco de essa pessoa se tornar inadimplente com o tempo.


Indicadores piores no Brasil tornam mais grave impacto das bets sobre endividados. Segundo Claudio Felisoni, professor da FIA Business School e responsável pelo estudo, o endividamento das famílias no Brasil tem uma dimensão totalmente diferente da registrada nos Estados Unidos, onde as despesas com as bets também impactaram a qualidade do endividamento.


"O endividamento das famílias no Brasil tem uma dimensão totalmente diferente da registrada nos Estados Unidos. As taxas de juros aqui praticadas tornam a situação dos locais absolutamente insustentável. Não há como pagar. Consequência: freia consumo de bens e serviços inclusive básicos, tais como saúde, mobilidade." - Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.


Milhões de brasileiros comprometeram renda com bets. A popularização das apostas online levou 39,5 milhões de brasileiros às bets nos últimos 12 meses, mostrou levantamento da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) em 2025. Do total, 19% (aproximadamente 7,5 milhões) admitiram que comprometeram parte da renda com os jogos de azar.


Especialista defende limites de propaganda e de apostas. A publicidade das redes de apostas deveria sofrer limitações, como as que existem sobre produtos considerados prejudiciais à saúde, defende Ana Leoni, CEO da Planejar, associação responsável no Brasil pela certificação dos profissionais planejadores financeiros. "O excesso de publicidade acaba levando a pessoa à distorção de uma realidade, de que ela pode ganhar muito dinheiro de forma rápida", diz.


Consumidor também deve definir limites nas apostas. A executiva diz que parte da solução para esse problema passa pelos usuários também. Segundo ela, uma medida simples e com resultados é a pessoa estabelecer tetos de apostas de acordo com o orçamento do lar.


"Tudo que envolve dinheiro traz o risco de levar a perda de controle. Principalmente por causa de vieses, como o da falácia dos custos irrecuperáveis, que é a certeza de que podemos recuperar aquilo que já perdemos, ou o viés da confirmação, quando uma aposta dá certo e a gente acha que vai continuar ganhando só porque quer muito. Então, a dica é sempre limitar o acesso, definindo limites de valor financeiro." - Ana Leoni, CEO da Planejar.

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