As apostas online se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento.
O impacto das apostas superou o peso histórico dos juros. Um estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School revelou que as plataformas online são a principal causa das dívidas.
Estudo comparou a influência de diferentes fatores sobre dívidas das famílias. Para isso, os responsáveis pela pesquisa criaram indicadores que calculam os impactos de quatro condições: o peso do crédito sobre a renda, o patamar dos juros, o tempo das dívidas e as bets.
Resultado do estudo mostra que apostas se tornaram mais relevantes para causar endividamento. O coeficiente associado às apostas atingiu 0,2255, superando com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440), dos juros ao consumidor (0,0709) e do tempo de dívida (-0,0017).
Mesmo somados, os impactos de crédito e de juros são menores que o das bets. Segundo o Ibevar e a FIA, o impacto das apostas online é quase o dobro da soma dos dois fatores tradicionais, podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros já está embutido na dinâmica do crédito.
"Ao longo do período analisado, observou-se uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento no Brasil. No entanto, após a entrada das apostas esportivas, legalizadas em 2018 e amplamente difundidas a partir de 2019, antes da regulamentação definitiva em 2023, a dinâmica da dívida ganhou novo impulso." - Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.
As famílias financeiramente vulneráveis sofrem o maior impacto. As despesas com jogos comprometem uma fatia maior da renda desse grupo, que acaba recorrendo a opções caras, como cartão de crédito e cheque especial.
"O padrão sugere deslocamento de recursos de atividades produtivas e poupança de longo prazo para apostas de retorno esperado negativo." - Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.
Mais de 100 milhões de brasileiros pagam juros de 100% ao ano. O presidente do BC (Banco Central) apontou que milhões pagam taxas de emergência. "No não consignado, chegamos em 49 milhões de pessoas que pagam 100% de juros ao ano. No cartão, temos 101 milhões", afirma Gabriel Galípolo.
Receita bruta total das bets autorizadas a operar no Brasil atingiu R$ 37 bilhões em 2025. O valor representa o total de apostas, excluindo os valores de prêmios pagos, montante sobre o qual recai a obrigação de que 12% sejam convertidos em destinações legais, segundo a SPA (Secretária de Prêmios e Apostas).
Indicadores negativos de crédito
Brasil tem os juros mais elevados em duas décadas. Mesmo após o BC promover, na semana passada, a primeira redução da taxa básica de juros no Brasil desde maio de 2024, a Selic segue no maior patamar desde julho de 2006.
Selic é referência para o mercado financeiro. É a partir dessa taxa que instituições financeiras definem quanto vão cobrar em empréstimos e financiamentos. Sobre a Selic, bancos e financeiras somam outros custos e condições, como impostos e margem de lucro, para definir a taxa final aos clientes. É por isso que, elevada, a Selic alimenta toda a cadeia de taxas no crédito do país.
Inadimplência dos brasileiros cresceu com juros elevados. Segundo o BC, a inadimplência das pessoas físicas piorou nos últimos 12 meses, subindo de 5,6% para 6,9% em janeiro. Parece pouco, mas essa diferença representa uma alta de 23%. Quando crescem os atrasos no pagamento de crédito, bancos e financeiras ficam mais seletivos na concessão de novas operações.
Comprometimento da renda atingiu patamar recorde. O percentual de 29,2% em janeiro superou a taxa de 27,5% de um ano antes. Nesse período, o endividamento das famílias também subiu, de 48,4% para 49,7%. Quanto mais dinheiro do orçamento já está comprometido com parcelas de empréstimos e financiamentos, maior é o risco de essa pessoa se tornar inadimplente com o tempo.
Indicadores piores no Brasil tornam mais grave impacto das bets sobre endividados. Segundo Claudio Felisoni, professor da FIA Business School e responsável pelo estudo, o endividamento das famílias no Brasil tem uma dimensão totalmente diferente da registrada nos Estados Unidos, onde as despesas com as bets também impactaram a qualidade do endividamento.
"O endividamento das famílias no Brasil tem uma dimensão totalmente diferente da registrada nos Estados Unidos. As taxas de juros aqui praticadas tornam a situação dos locais absolutamente insustentável. Não há como pagar. Consequência: freia consumo de bens e serviços inclusive básicos, tais como saúde, mobilidade." - Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.
Milhões de brasileiros comprometeram renda com bets. A popularização das apostas online levou 39,5 milhões de brasileiros às bets nos últimos 12 meses, mostrou levantamento da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) em 2025. Do total, 19% (aproximadamente 7,5 milhões) admitiram que comprometeram parte da renda com os jogos de azar.
Especialista defende limites de propaganda e de apostas. A publicidade das redes de apostas deveria sofrer limitações, como as que existem sobre produtos considerados prejudiciais à saúde, defende Ana Leoni, CEO da Planejar, associação responsável no Brasil pela certificação dos profissionais planejadores financeiros. "O excesso de publicidade acaba levando a pessoa à distorção de uma realidade, de que ela pode ganhar muito dinheiro de forma rápida", diz.
Consumidor também deve definir limites nas apostas. A executiva diz que parte da solução para esse problema passa pelos usuários também. Segundo ela, uma medida simples e com resultados é a pessoa estabelecer tetos de apostas de acordo com o orçamento do lar.
"Tudo que envolve dinheiro traz o risco de levar a perda de controle. Principalmente por causa de vieses, como o da falácia dos custos irrecuperáveis, que é a certeza de que podemos recuperar aquilo que já perdemos, ou o viés da confirmação, quando uma aposta dá certo e a gente acha que vai continuar ganhando só porque quer muito. Então, a dica é sempre limitar o acesso, definindo limites de valor financeiro." - Ana Leoni, CEO da Planejar.