Desde dezembro de 2022, a trajetória que derrubou o preço da gasolina em 16,4% para as distribuidoras, de R$ 3,08 para R$ 2,57, não aliviou os motoristas. No mesmo período, o valor médio do litro do combustível nos postos aumentou 37,1%, de R$ 4,98 para R$ 6,33.
Petrobras reduziu preço da gasolina nas refinarias em R$ 0,51 desde dezembro de 2022. No período, foram feitos 11 reajustes, com oito cortes e três elevações. A redução mais recente foi anunciada na semana passada e diminuiu em R$ 0,14 (-5,17%) o valor do combustível para as distribuidoras.
Queda nominal de 16,4% da gasolina não aliviou no bolso dos consumidores. Mesmo com os reajustes da Petrobras, o preço médio do litro do combustível nos postos subiu de R$ 4,98 para R$ 6,33 desde a última semana de 2022. Os valores fazem parte dos dados coletados pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
Queda de preço da gasolina para as distribuidoras não chega aos postos
Competição
Presidente da Petrobras atribui ineficácia dos reajustes à venda da BR Distribuidora. Em entrevista recente ao programa Sem Censura, da TV Brasil, Magda Chambriard disse que a estatal foi criada para ser responsável pelos combustíveis "do poço ao posto" e lamenta que o processo tenha sido interrompido após a privatização da rede da empresa, em 2019.
"Com o acesso ao consumidor final, a Petrobras conseguia ajudar a formular o preço [nas bombas]. Quando a Petrobras sai da ponta, ela chega só até as refinarias [...] A gente abaixa o preço do combustível, mas as distribuidoras em geral alargam suas margens e isso [queda dos preços] não alcança o consumidor final." - Magda Chambriard.
Postos rechaçam a percepção de que são os "vilões" da composição de preços. O presidente do Sincopetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo), José Alberto Gouveia, afirma que os estabelecimentos têm margem para cortar, no máximo, R$ 0,06 dos R$ 0,14 reduzidos às refinarias. "O governo precisa ser claro e destacar que a Petrobras não interfere no resto da cadeia, mas, como ele não faz, o dono do posto vira vilão", lamenta.
Irregularidades no setor dos combustíveis também prejudicam a concorrência. Após a Operação Carbono Oculto identificar a utilização de postos para lavar dinheiro do crime organizado, as falhas expostas pela competição do setor ganharam uma nova escala. Para Gouveia, a criação de um "mercado paralelo" prejudica o segmento por não recolher impostos e não registrar seus funcionários. "Isso estreita a margem de todo mundo", diz ele ao avaliar que a ilegalidade exige a redução indireta de preços regulares.
"Não é justo concorrer com um posto que não paga impostos. O 'mercado do honesto' passa por uma fase muito difícil." - José Alberto Gouveia.
"Sempre que vem uma empresa que não necessita de lucro e só está ativa para lavar dinheiro, isso afeta o comportamento dos preços. Por ser um setor muito concentrado, a ANP deveria optar por uma regulação adequada para evitar que o crime se infiltre no setor, que trabalha com margens de lucro muito amplas." -Ricardo Hammoud.