Paraná

Chuvas no Paraná aumentam risco para produtores de soja

03 nov 2026 às 16:01

Os temporais com chuva, vento e granizo que atingiram o Paraná entre domingo (1º) e segunda-feira (2), feriado de Finados, provocaram danos principalmente em municípios das regiões Noroeste, Oeste e Centro-Sul. Segundo balanço preliminar da Defesa Civil Estadual, 17 municípios registraram ocorrências, com 1.277 pessoas afetadas e 350 residências danificadas. As chuvas ocorreram durante o plantio da soja, e devem impactar financeiramente os produtores rurais. Até 26 de outubro, 62% dos 5,74 milhões de hectares previstos para a safra 2026/27 estavam semeados, de acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento.


Maringá e Marquinho estão entre os municípios mais atingidos. Em Maringá, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) registrou rajadas de 96,3 km/h no aeroporto na madrugada de segunda-feira, e a prefeitura decretou estado de calamidade pública. Em Marquinho, a Defesa Civil contabilizou 1.080 pessoas afetadas e 270 casas danificadas pelo granizo. Em Mercedes, no Oeste, uma cooperativa foi destruída, com prejuízo estimado pela prefeitura em mais de R$ 600 mil, e cerca de dez propriedades rurais tiveram danos. A prefeitura suspeita da ocorrência de um tornado, mas o Simepar informou que não há confirmação e que a análise continua.


Entre a meia-noite e as 8h de segunda-feira, as estações do Simepar registraram 65,2 mm de chuva em Palotina, 62,8 mm em Cianorte, 57,2 mm em Inajá e 51,8 mm em Maringá. O órgão prevê a formação de um ciclone extratropical nesta semana, com risco de supercélulas entre quarta (4) e quinta-feira (5).


Os temporais ocorrem no momento em que o setor acompanha as projeções para o El Niño. Estudo da Serasa Experian divulgado em 28 de outubro estima que, em um cenário de El Niño forte, a produção brasileira de soja na safra 2026/27 pode ser 9,7% menor do que em condições climáticas neutras. O Paraná está entre os 13 estados com perda projetada, com redução estimada em 2,3 milhões de toneladas, o terceiro maior volume do país, atrás de Mato Grosso e Goiás. A projeção atual do Deral para o estado é de 22,75 milhões de toneladas.


De acordo com o engenheiro agrônomo Giuseppe Marcantonio, especialista em perícia judicial, os efeitos das chuvas variam conforme a fase de cada lavoura. Quem ainda não plantou não consegue entrar com as máquinas no solo encharcado. Nas áreas recém-semeadas, o impacto das gotas e o excesso de água sobre o solo exposto causam compactação e selamento da superfície. "E quem já tem a lavoura estabelecida, no começo do ciclo, pode não conseguir fazer os tratos culturais necessários no momento certo", afirma.


O replantio passa a ser necessário quando a perda de plantas faz com que a lavoura remanescente gere mais prejuízo do que o custo de semear novamente. Marcantonio explica que a soja tem capacidade de compensação, chamada de plasticidade, que mantém a produtividade final dentro de certas faixas de população de plantas. "Mas o excesso de chuva pode deixar populações tão baixas que essa compensação não dá conta", afirma. Segundo ele, o gasto com semente no replantio é de aproximadamente R$ 600 por hectare, cerca de R$ 1.450 por alqueire, o equivalente a quase cinco sacas por hectare com a soja a R$ 130. O valor não inclui diesel, inoculação e fertilizante.


No Sul, o El Niño costuma provocar aumento das chuvas, e não estiagem. Para o agrônomo, os riscos para o produtor paranaense estão concentrados em doenças, baixa luminosidade e dificuldades na colheita. Segundo ele, a tendência é de muitos períodos nublados e chuvosos, "e a chuva em si não seria o maior problema; a falta de luz, sim. Com pouca luz, as lavouras ficam com uma fase vegetativa muito mais longa do que, por exemplo, em um ano seco".


Nas regiões de plantio antecipado, como Campo Mourão e o Oeste, onde a semeadura ocorre em setembro, a repetição das chuvas em janeiro pode impedir a colheita e comprometer a qualidade do grão, com aumento de grãos ardidos e mofados. Para o advogado Raphael Condado, especialista em direito do agronegócio, a perda na lavoura pode se transformar em problema financeiro. "Evento climático extremo deixou de ser exceção e virou parte do risco da atividade. A perda na lavoura, quando compromete a receita, vira rápido um problema de caixa", afirma. Segundo ele, as parcelas do financiamento continuam vencendo. "É nesse momento que a organização e o acompanhamento técnico fazem diferença entre uma perda administrável e um prejuízo que vira dívida."


Seguro e prorrogação da dívida


O registro das perdas é a primeira etapa para acionar o seguro e negociar com o banco. A documentação inclui laudo de profissional habilitado, fotos datadas e georreferenciadas, dados de chuva e granizo e o decreto de emergência do município. "Sem essa documentação, o direito existe no papel, mas não se sustenta na prática", afirma Condado. Nas lavouras cobertas por seguro rural ou pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), o sinistro deve ser comunicado à seguradora ou ao banco dentro do prazo previsto na apólice, e a área não pode ser colhida nem alterada antes da vistoria do perito, sob risco de perda da indenização.


Quando a perda compromete a capacidade de pagamento, o Manual de Crédito Rural (MCR 2.6.4) prevê a prorrogação da dívida rural, direito reconhecido pela Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A prorrogação deve manter os termos do contrato original, sem exigência de nova garantia. O pedido precisa ser formal, por escrito, acompanhado do laudo e, de preferência, apresentado antes do vencimento da parcela.


Renegociações fechadas logo após o prejuízo podem incluir cláusulas que ampliam o risco para o produtor. "É aí que aparecem acordos que trocam a garantia por alienação fiduciária do imóvel, ou cláusulas que fazem o produtor abrir mão de discutir o que foi cobrado a mais. Alívio de curto prazo que custa caro lá na frente", diz Condado.

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