O parlamentar italiano Angelo Bonelli classificou como "um escândalo" a rapidez com que Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro obtiveram a cidadania e os passaportes italianos. Em publicações nas redes sociais, o deputado voltou a questionar o reconhecimento da cidadania em apenas 58 dias após a apresentação formal do pedido, enquanto cidadãos ítalo-brasileiros chegam a esperar cerca de dez anos nas filas consulares.
"Um escândalo! Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro receberam a cidadania 58 dias após apresentarem o pedido! Outros cidadãos brasileiros esperaram dez anos para obter a cidadania italiana. Os Bolsonaros são aliados do governo de direita de Meloni." -- Bonelli
O parlamentar, que já havia criticado a concessão dos passaportes após Flávio usar o documento para deixar o Brasil, apontou que os irmãos Bolsonaro são aliados políticos do governo de direita da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. Ele também afirmou haver indícios de possível favorecimento político à família.
Apuração e suspeita de interferência política
Em discurso na Câmara dos Deputados da Itália, cujo vídeo foi republicado nas redes sociais, Bonelli defendeu a realização de investigações imediatas para identificar se autoridades do Executivo italiano intervieram em favor dos brasileiros.
"É de toda a evidência que houve um procedimento acelerado. É necessário apurar quem solicitou, se por parte de algum representante do governo italiano houve uma solicitação, uma recomendação política para que os irmãos Bolsonaro, que fogem da Justiça — refiro-me a Eduardo e Flávio Bolsonaro —, tenham tido o passaporte, enquanto há italianos que esperam dez anos." -- Bonelli
Formalmente, o deputado já havia acionado os Ministérios dos Negócios Estrangeiros e do Interior, exigindo as datas exatas dos pedidos, a fiscalização da ordem cronológica da Embaixada da Itália em Brasília e a abertura de uma auditoria para garantir igualdade de tratamento em relação aos demais requerentes.
Uso do documento para deixar o Brasil
Durante o pronunciamento, Bonelli reproduziu um vídeo gravado por Eduardo Bolsonaro em Dallas, no Texas, para ilustrar como o documento europeu estaria sendo utilizado em meio aos embates com o Judiciário brasileiro. O deputado mencionou a condenação de Eduardo a quatro anos por cumplicidade na tentativa de golpe de Estado no Brasil e destacou as declarações direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes.
"Eduardo Bolsonaro fez um vídeo em Dallas, no Texas, pegando no passaporte e usou o passaporte italiano para insultar um juiz. Diz: 'Eu me preparei, tenho o passaporte italiano, nunca poderá me pegar'." -- Bonelli
O parlamentar italiano também questionou: "É admissível que o passaporte italiano possa ser utilizado desta maneira?".
Além de Eduardo, a atuação da representação diplomática italiana voltou ao centro do debate após a recente saída de Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos Estados Unidos. Segundo as informações apresentadas no material, o senador utilizou o passaporte italiano para viajar ao exterior após o Supremo Tribunal Federal determinar a entrega e o cancelamento de seus passaportes brasileiro e diplomático.
Tratamento preferencial?
Segundo documento apresentado no último dia 28, respostas anteriores do próprio governo italiano ao Parlamento confirmaram que Flávio e Eduardo Bolsonaro solicitaram a entrada na lista de espera da Embaixada da Itália em Brasília em 2020.
Em 8 de novembro de 2022, nove dias após a derrota eleitoral do pai, ambos compareceram pessoalmente à representação diplomática para solicitar o andamento dos processos.
Flávio e Eduardo concluíram os procedimentos e obtiveram a cidadania em 2023, enquanto Carlos Bolsonaro teve o reconhecimento em 2024. A data de apresentação do pedido inicial de Carlos não foi divulgada.
O parlamentar afirma que a legislação italiana estabelece prazo máximo de 730 dias para a conclusão desses processos. No entanto, as esperas no Brasil ultrapassam habitualmente uma década, com mais de 112 mil pedidos pendentes desde 2018.
Além disso, a Embaixada da Itália em Brasília havia suspendido novas convocações em agosto de 2018. No final de 2022, ainda chamava requerentes inscritos na fila daquele ano.