Política

Fala de Flávio destoou e gerou constrangimento nos EUA, diz participante

09 jul 2026 às 09:03

A participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública realizada em Washington para debater a imposição de barreiras alfandegárias norte-americanas repercutiu de forma negativa entre membros da comitiva brasileira. Em entrevista à BandNews TV, o professor da FGV e pesquisador especializado em riscos no sistema financeiro, Gustavo Pessoa, que estava presente no recinto, avaliou que o tom adotado pelo pré-candidato à Presidência destoou do caráter do evento.


"Tivemos apresentações num espírito técnico cooperativo muito bacana, apenas com alguns pequenos desvios: algumas associações americanas pedindo a imposição de taxas a produtos que ficaram de fora, como a carne brasileira, e também o discurso do Flávio (Bolsonaro) que destoou bastante dos demais, com um caráter muito político, o que deixou ali todos no recinto até um pouco constrangidos, mas, no geral, a recepção técnica foi muito salutar para todo mundo".


De acordo com o especialista, a postura da equipe do senador também gerou atritos com as regras locais do comitê de representação comercial antes mesmo do início dos pronunciamentos. "Você vê que o clima mudou totalmente. O Flávio já chegou atrasado, atrasou o início da sessão. Ele chegou ali junto com o Eduardo Bolsonaro e mais três assessores, e não paravam de tirar foto, falar ao telefone, fazer filmagens num recinto que é estritamente proibido fazer qualquer tipo de gravação. Inclusive eles foram repreendidos pelo diretor da mesa, falando que ali era proibido, relembrando esta regra".


Gustavo Pessoa avalia que o discurso de Flávio na audiência teve caráter político, diferente da discussão técnica que ocorreu com os demais membros. Na tribuna, o senador utilizou seu tempo de fala para citar escândalos de corrupção para atacar a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fez duras críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e buscou capitalizar politicamente a criação do Pix, defendendo o sistema de pagamentos instantâneos como um legado do governo de Jair Bolsonaro.


"Você via ali a mesa diretora, um olhando pro outro um pouco mais agitados. Inclusive, depois, ao final, foi feita uma pergunta ao Flávio, como é feito no padrão, uma questão para cada apresentante ali, e ele foi pego um pouco de contrapé. Não tinha um discurso pronto, gaguejou um pouquinho, tentou emendar e reforçou dizendo que a imposição de tarifas ao Brasil iria fazer com que o presidente Lula se aproximasse ainda mais da China. Então tentou criar um fato totalmente político a partir disso. Ele não quis falar com os repórteres que estavam esperando ali na frente da audiência e pediu para sair ali por uma saída escondida pela garagem, para que ninguém pudesse abordar ele e a equipe."


Otimismo por lista de exceções


Apesar dos ruídos políticos provocados pela ala parlamentar, Gustavo Pessoa destacou que o corpo técnico da comissão brasileira conseguiu prender a atenção das autoridades norte-americanas ao apresentar dados consolidados sobre o impacto econômico mútuo das tarifas.


"Me parece que eles estavam muito interessados nos nossos documentos, nas nossas explicações, nos nossos argumentos. Eles são muito técnicos, muito baseados nos dados que nós estávamos levando para eles. Então me parece que todos conseguiram expressar muito bem a importância dessa importação e da não imposição das tarifas, não só pro Brasil, mas pro próprio mercado americano, que isso iria trazer prejuízos para eles mesmos. Porém, todos nós sabemos que provavelmente vai ser feito um relatório técnico e entregue aos órgãos superiores para que seja decidido alguma coisa politicamente"


O pesquisador revelou ainda que bastidores diplomáticos paralelos, ocorridos durante o feriado da Independência dos Estados Unidos, podem abrir caminho para mitigar os impactos tributários sobre determinados setores produtivos do Brasil. “Tive informações que neste final de semana, durante as comemorações do dia 4 de julho, houveram alguns encontros do Trump e da sua assessoria e de algumas outras pessoas próximas com vários empresários, incluindo alguns empresários brasileiros. Acredito que era também para tratar sobre essas tarifas contra o Brasil.”.

“Acredito que pelo menos algumas exceções nós iremos conseguir, não por conta do nosso trabalho técnico, porém nós demos argumentos para que ele (Trump) possa usar nessas novas exceções. Mas nós sabemos, infelizmente, que a forma de negociar do governo é um pouquinho diferente do que nós estamos acostumados. Então eu espero que toda essa comissão que foi formada, que entregamos documentos, possa dar subsídios para ele poder abrir uma lista de exceção ou então estender o prazo para que mais argumentos possam ser adicionados”, finalizou.

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