Uma pesquisa científica liderada pela Embrapa, em parceria com outras instituições, promete trazer uma alternativa sustentável para diminuir a dependência do agronegócio brasileiro em relação aos insumos importados. O estudo, que já está em andamento há três anos, analisa o uso da estruvita, um fertilizante mineral extraído a partir de dejetos de animais, como substituto para os fertilizantes fosfatados tradicionais.
A busca por alternativas nacionais ganhou força com a disparada no preço dos insumos após os conflitos no Oriente Médio e os problemas logísticos de importação. Segundo dados do Ministério da Agricultura, o Brasil compra mais de 80% dos fertilizantes que utiliza, o que equivale a cerca de 8% do consumo global.
A vulnerabilidade aumentou porque o custo da nutrição representa mais de 30% do custo total da lavoura. Nos portos, o preço do produto subiu 20%, mas o valor disparou mais de 40% quando o insumo seguiu para o interior do país devido às margens de distribuidores e ao valor do frete. Com o tempo curto para a tomada de decisão antes do plantio, a nova tecnologia surge como um alívio para o planejamento das próximas safras.
Como funciona a tecnologia e os resultados na soja
A produção da estruvita reaproveita resíduos da criação de animais, como os dejetos líquidos de suínos. O material passa por um processo de digestão anaeróbica e cristalização: o fósforo solúvel e o nitrogênio são retirados do líquido e misturados ao magnésio, formando um cristal composto por 10% de fósforo, 10% de magnésio e 5% de nitrogênio.
Os testes estão sendo realizados no município de Rio Verde, no sudoeste de Goiás. Inicialmente, a substância foi testada em ambientes controlados e agora os ensaios avançaram para as lavouras a céu aberto. Os dados preliminares apontam que a estruvita conseguiu suprir cerca de 50% da demanda de fósforo no cultivo de soja.
Por possuir um pH neutro para básico, o fertilizante reage muito bem nos solos do país, que são naturalmente ácidos. A liberação dos nutrientes ocorre de forma lenta, alimentando a planta durante todo o seu ciclo e deixando um efeito residual benéfico para a cultura que vem na sequência, como a rotação da soja com o milho safrinha.
Ganhos ambientais e economia bilionária
Além de gerar economia financeira para o produtor rural contra a instabilidade do dólar, o uso da estruvita traz grandes vantagens ecológicas para as regiões produtoras. Estima-se que o Brasil possua potencial para economizar entre 350 mil e 400 mil toneladas de fósforo que hoje são trazidas de fora do país.
Ao mesmo tempo, o processo limpa os dejetos líquidos que as granjas de suínos são obrigadas a tratar; com a retirada dos minerais para transformá-los em adubo sólido e transportável, a água restante fica mais pura, o que permite a sua reciclagem e o seu reaproveitamento dentro da própria propriedade.
O próximo passo dos pesquisadores é transformar o projeto piloto em uma planta de produção mais robusta e industrial. O objetivo é ampliar as áreas de aplicação no campo e definir as regras técnicas para que a estruvita possa ser utilizada de forma segura e eficiente em escala comercial.