Um fio delicado, mas dotado de uma força gigantesca para a economia rural. No Paraná, a criação do bicho-da-seda tem transformado a rotina de pequenas propriedades e se consolidado como uma valiosa fonte de renda para centenas de famílias. Embora o estado seja amplamente conhecido pela liderança na produção de tilápia, carne de frango e feijão, é na sericultura que o território paranaense alcança um patamar de quase exclusividade, sendo responsável por 86% de toda a seda produzida no Brasil.
Toda essa matéria-prima cruza fronteiras e ganha o mercado internacional, sendo exportada para países como Itália, Japão, Índia, China e, principalmente, para as grandes grifes da alta costura na França. Contudo, muito antes de desfilar nas passarelas europeias, o ciclo da seda começa na madrugada do campo, com o trabalho de produtores dedicados.
A cerca de 100 quilômetros de Cascavel, o município de Diamante do Sul destaca-se como o maior produtor de seda do Paraná. Com pouco mais de 3 mil habitantes, a pacata cidade esconde uma potência agrícola que se desenvolveu graças às condições climáticas favoráveis da região. O polo produtor, que começou há 27 anos com apenas cinco pioneiros, conta hoje com uma rede de 120 produtores integrados e projeta uma safra de mais de 100 mil quilos de casulo verde para o ciclo atual, mantendo o município em primeiro lugar no ranking estadual.
Tradição familiar e a rotina nos barracões
Entre as famílias que vivem da atividade está a da produtora Janei Grezechechen, que há mais de duas décadas encontrou na sericultura a solução para sustentar as duas filhas sem precisar se afastar do lar. "Eu precisava de uma renda para ganhar em casa e cuidar das crianças, para não deixá-las sozinhas. Acabei acostumando a cuidar da casa e garantir o sustento bem do lado de fora", relata a agricultora, que hoje comemora ter criado as filhas, agora adultas, dentro do barracão de manejo.
A rotina exige disciplina rigorosa. O despertador toca às 4 horas da manhã para garantir o trato dos insetos na quantidade exata. Cada caixa mantida na propriedade é capaz de gerar 75 quilos de casulos, totalizando uma média de 150 quilos por mês.
Durante o ciclo de crescimento, os bichos passam por fases de transição conhecidas como "idades". Entre a terceira e a quarta idade, as lagartas entram em um período de letargia profunda. Assim que despertam de forma uniforme, a produtora distribui as folhas de amora para a alimentação coletiva. Esse cuidado garante que todos os insetos cresçam no mesmo ritmo para que, na quinta e última fase, subam juntos para as cartelas onde tecerão os casulos de forma parelha, evitando atrasos que possam comprometer o lote.
Qualidade que conquista o mundo
Toda a produção colhida em Diamante do Sul tem como destino uma empresa metal-têxtil especializada em fiação, localizada em Londrina, que acompanha de perto a assistência técnica no campo. De acordo com o técnico agrícola Carlos Roberto, que orienta os produtores da região, o alto padrão do fio paranaense não é por acaso.
"O manejo correto dentro do barracão e a excelente qualidade da plantação de amora ao lado das instalações são os fatores que interferem diretamente na resistência e no brilho do fio. Trabalhamos lado a lado com o produtor para extrair o melhor produto do mundo", explica o técnico. O equilíbrio térmico, mantido idealmente entre 20°C e 28°C, associado à dedicação diária na agricultura familiar, garante que os casulos alcancem a perfeição exigida pelo exigente mercado consumidor internacional.