O Ministério da Saúde lançou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas. O documento orienta o acolhimento, o acompanhamento e o tratamento de pessoas afetadas por apostas no Sistema Único de Saúde (SUS) e integra um conjunto de medidas para enfrentar um problema que já é tratado como questão de saúde pública no Brasil.
A psiquiatra Alessandra Diehl tem sido uma das principais vozes sobre o tema e alerta para uma verdadeira epidemia de viciados em apostas. De acordo com a especialista, após a regulamentação das apostas online, a demanda por ajuda no SUS relacionada a jogos já é a terceira maior, atrás apenas do álcool e do tabaco. Ela destaca que o trabalho de enfrentamento está crescendo na sociedade e que é fundamental acabar com o estigma em torno do problema.
Segundo Diehl, o vício em apostas ativa o sistema de recompensa cerebral de forma idêntica a outras drogas, gerando um ciclo de desejo, gratificação passageira e busca constante pela aposta para compensar perdas. O perfil predominante envolve homens adultos e adolescentes, especialmente de baixa renda e escolaridade, que veem nos jogos uma forma rápida de ascensão social. Estima-se que cada pessoa viciada impacte negativamente a vida de pelo menos cinco familiares ou pessoas próximas.
Entre os riscos graves estão o endividamento severo com bancos e agiotas e a possibilidade de ideação suicida, especialmente quando o indivíduo não enxerga saída para sua situação financeira. Como parte das ações, o governo também lançou um curso online gratuito para capacitar profissionais da rede pública no acolhimento e tratamento dessa população.
A psiquiatra recomenda ainda a busca por grupos de mútua ajuda, como os Jogadores Anônimos (JA) e o Gam-Anon, voltado a familiares. Apesar de considerar o guia um avanço importante, Alessandra Diehl reforça que ainda existe uma grande lacuna no acesso ao tratamento especializado, como psicólogos e psiquiatras, e na disponibilidade de leitos para casos mais graves.