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Carne bovina deve substituir o arroz como a ‘vilã’ da inflação em 2026

Ciclo pecuário restringe a oferta de bovinos e deve elevar preços neste ano; Frango e suíno acompanham alta, mas com cautela
15 jan 2026 às 18:22
Por: Band - Viviane Taguchi
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou nesta quinta-feira (15) que a safra agrícola 2025/26 deve produzir a maior safra de alimentos da história do Brasil, algo em torno de 353,1 milhões de toneladas. A soja continua sendo o alimento mais cultivado no país e destinada, principalmente ao abastecimento da agroindústria de rações para animais. Mas, apesar da maior oferta no campo, os consumidores não sentem o alívio no bolso.


O cenário econômico para a alimentação dos brasileiros nos próximos meses aponta para uma inversão significativa nos vetores de pressão inflacionária. Dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam para uma "troca de guarda": enquanto o arroz foi o grande responsável pela deflação na cesta básica em 2025, as carnes devem assumir o protagonismo das altas de preços neste ano, impulsionadas pela reversão do ciclo da pecuária, um período em que o volume de boi gordo cai, elevando os preços.


O mercado já aguardava a reversão do ciclo pecuário em 2025, mas o setor conseguiu manter a oferta em alta, gerando uma estabilidade dos preços da carne. Durante o ano, o grupo carne bovina acumulou um aumento de 1,22% segundo o IBGE, Mas, apenas em dezembro, as carnes subiram 1,48%, um índice superior à inflação de todo o mês. Cortes populares no varejo, como o contrafilé, registraram altas superiores a 2,30% em apenas 30 dias.


Em contrapartida, o arroz foi o item que aliviou o bolso do consumidor no ano passado. Em algumas regiões, como Campo Grande (MS), a queda no preço do cereal chegou a ultrapassar 30%, fruto de uma superoferta que ajudou a segurar os índices gerais de inflação. Os produtores de arroz, porém, ficaram desestimulados com preços tão baixos e reduziram os plantios nesta safra.


O ciclo pecuário e a alta da carne

A virada de chave para 2026 não é um evento aleatório, mas sim uma consequência direta do funcionamento do mercado pecuário. O principal fator para a alta projetada da carne bovina é o chamado "ciclo pecuário". Nos últimos anos, o Brasil viveu uma fase de descarte de matrizes, o que aumentou a oferta de carne no mercado interno e segurou os preços. Agora, o cenário se inverteu.

Segundo análises do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o momento é de retenção de fêmeas, ou seja, é quando o pecuarista, visando a rentabilidade futura, deixa de enviar a vaca para o abate para utilizá-la na reprodução e gerar novos bezerros. 

O resultado imediato dessa estratégia é a "oferta limitada". Com menos animais disponíveis para os frigoríficos, o preço da arroba do boi gordo sobe. Esse custo, inevitavelmente, é repassado ao varejo e chega à mesa do consumidor.

Carne de frango e de porco também sobe?

A alta da carne bovina raramente acontece de forma isolada. O mercado de proteínas funciona com base no "efeito substituição". Quando o preço da carne bovina sobe no açougue ou no supermercado, o consumidor tende a migrar para opções mais baratas, como o frango e a carne suína.

O aumento na demanda por aves e suínos pressiona os preços dessas categorias, gerando uma inflação generalizada no setor de proteínas. Mesmo com custos de produção mais estáveis, devido à safra maior de grãos, a lei da oferta e da procura deve ditar o ritmo de alta para essas carnes em 2026.

Além disso, o arroz não deve repetir o feito deflacionário. Com a projeção de uma quebra de safra de aproximadamente 13% para este ano, o grão deve passar por uma correção de preços para recuperar margens, deixando de servir como âncora para o índice inflacionário.

Essa combinação cria um cenário desafiador: o alimento que ficou barato (arroz) para de cair, e o item de maior peso no orçamento das famílias (carne) entra em ciclo de alta, configurando um ano de atenção redobrada para o planejamento doméstico.
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