A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), acompanhada por representantes de diversos setores da economia nacional, participou nos dias 6 e 7 de julho, em Washington (EUA), de audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Em pauta, a proposta do governo norte-americano de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros importados, medida que ameaça incluir o café solúvel.
A entidade defendeu que o produto brasileiro é um insumo estratégico para o mercado norte-americano, essencial para a fabricação de bebidas prontas para consumo (ready to drink), produtos de confeitaria, panificação, laticínios e serviços de alimentação institucional.
Em entrevista à BandNews Tv, o presidente da Abics, Pavel Cardoso, comentou sobre a reunião e as sobretaxas ao café.
Setor aponta dependência da indústria e riscos ao consumidor
Durante as audiências, a Abics destacou que grandes empresas de alimentos e bebidas nos EUA, que representam mais de 20% das vendas de café no varejo doméstico e mais de 10% do consumo total, dependem diretamente da estabilidade do fornecimento de café solúvel brasileiro. O Brasil responde por 22% das importações norte-americanas desse produto, somando 15.500 toneladas métricas em extratos a granel, concentrados e grânulos.
O diretor de Relações Institucionais da Abics, Fabio Sato, ressaltou que a qualidade e os perfis de solubilidade do café brasileiro não são facilmente replicáveis por outros fornecedores. Além disso, o mercado de importação dos EUA é altamente concentrado: México e Brasil detêm quase 60% do total, sendo que os preços mexicanos são cerca de 1,5 vez superiores aos brasileiros.
A Associação alertou que a aplicação da tarifa de 25%, baseada na Seção 301, resultaria em escassez imediata, custos elevados e redução da competitividade. O impacto final seria sentido diretamente pelo consumidor norte-americano, que consome café solúvel diariamente, a um custo baixo, entre US$ 0,06 e US$ 0,07 por xícara.
"A maior parte do valor econômico desse comércio é gerada nos Estados Unidos. O café solúvel brasileiro entra quase inteiramente a granel, enquanto a mistura, o empacotamento, o marketing e a distribuição ocorrem em solo americano. Portanto, uma tarifa sobre esse produto não penalizaria um bem estrangeiro acabado, mas aumentaria os custos para os fabricantes nacionais e enfraqueceria a competitividade dos produtos de café solúvel fabricados nos EUA", argumentou Sato.
Além da Abics, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e a entidade norte-americana National Coffee Association (NCA) também reforçaram a necessidade de exclusão do café solúvel brasileiro de qualquer lista de tarifas adicionais. Segundo o diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional do BMJ, José Pimenta, não houve contestação aos argumentos apresentados durante a audiência, o que gera expectativas positivas pela inclusão do produto em uma lista de isenção.