O setor da pecuária leiteira no Brasil enfrenta, em 2025, um de seus períodos mais críticos em virtude da forte concorrência com produtos importados, especialmente do Uruguai e da Argentina. A entrada de lácteos estrangeiros pressionou a cotação do litro de leite no mercado interno, reduzindo drasticamente as margens de lucro dos pequenos e médios produtores nacionais.
Diante desse cenário de instabilidade, a Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (FAEMG) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) lançaram o programa "Café com Leite".
A estratégia consiste em incentivar a diversificação produtiva, introduzindo a cafeicultura em propriedades tradicionalmente leiteiras para garantir a sustentabilidade financeira do negócio rural.
A proposta central do programa é criar uma segunda fonte de receita que atue como um "colchão amortecedor" durante as crises cíclicas do leite. No município de Governador Valadares, localizado no Vale do Rio Doce, o projeto piloto já apresenta projeções econômicas sólidas.
O produtor Leandro, que trabalha em parceria com o pai, o Sr. Evaristo, é um dos beneficiados pela iniciativa. Atualmente, a propriedade da família produz 200 litros de leite por dia, o que totaliza 72 mil litros por ano. Com o valor médio do litro em R$ 2,20, o faturamento bruto anual da atividade leiteira é de R$ 158 mil.
No entanto, após o abatimento dos custos de produção, o lucro líquido restante para a família é de apenas R$ 32 mil anuais, um valor considerado insuficiente para a manutenção de longo prazo e investimentos na propriedade.
Diversificação produtiva e o impacto na sucessão familiar
Para reverter esse quadro de baixa rentabilidade, o programa "Café com Leite" auxiliou Leandro na implantação de dois hectares de café conilon.
Conforme o planejamento técnico, a primeira colheita da lavoura está prevista para o final do próximo ano, com uma expectativa de produção de 100 sacas de café. Considerando a cotação atual de R$ 1.300 por saca, o faturamento bruto apenas com o café chegaria a R$ 130 mil. Subtraindo os custos de investimento e manejo da lavoura, o lucro líquido estimado para o produtor seria de R$ 45 mil. Ao somar os ganhos das duas atividades, o lucro anual da propriedade saltaria de R$ 32 mil para R$ 77 mil.
O sucesso da integração entre pecuária e cafeicultura também é observado em outras regiões de Minas Gerais, como no município de Itaparuba. O produtor Éscio, que já consolidou a diversificação em suas terras, relata que o lucro obtido com o café foi fundamental para investir na modernização da pecuária leiteira. Com os recursos excedentes, ele pôde adquirir animais de alta linhagem, promovendo um salto qualitativo na genética do rebanho.
Esse aumento na lucratividade e na eficiência produtiva gerou um efeito social direto: o retorno do filho de Éscio para o campo. Após um período morando na zona urbana, o jovem optou por retornar à propriedade ao perceber que o negócio rural tornou-se economicamente viável e promissor.
A assistência técnica fornecida pelo Senar tem sido o diferencial para alcançar altos índices de produtividade na região leste de Minas. Em Itaparuba, lavouras de café conilon acompanhadas pelo programa chegaram a registrar a colheita de 158 sacas por hectare, um volume significativamente acima da média nacional para áreas não irrigadas.
Para a FAEMG, esses resultados reforçam o objetivo principal do programa: transformar a propriedade rural em uma unidade de negócio lucrativa, capaz de competir com as oportunidades de emprego nas cidades e garantir que as novas gerações tenham interesse em dar continuidade ao trabalho no campo.