A escalada dos conflitos no Oriente Médio pode prejudicar o setor agrícola brasileiro, mas principalmente o segmento da avicultura. Os países árabes, com destaque para os Emirados Árabes Unidos, são os principais destinos da carne de frango brasileira e a tensão na região pode prejudicar até 25% das vendas, de acordo com um levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Usp), divulgado nesta sexta-feira (6).
A preocupação de agentes do mercado e dos produtores de frango é imediata. Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita ocupam, respectivamente, o primeiro e o terceiro lugares no ranking de maiores compradores da proteína nacional. No ano passado, esses dois países sozinhos importaram mais de 877 mil toneladas de frango, conforme registros da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O setor de carne bovina também deve registrar perdas nas exportações devido ao conflito.
Um dos pontos mais críticos para a logística global foi o anúncio feito pelo Irã na última segunda-feira (2) sobre o fechamento do Estreito de Ormuz. Esta é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo e o principal canal de escoamento para o comércio com diversos países da Península Arábica. O bloqueio inviabiliza a chegada de navios cargueiros, estrangulando o fluxo comercial.
Com a possibilidade de interrupção nas vendas para o Oriente Médio, o setor estuda alternativas para não acumular estoques. Uma das opções avaliadas por exportadores é realocar a carne para outros mercados internacionais. No entanto, essa mudança não é simples, alertam os agentes do Cepea.
Os países árabes compram, prioritariamente, o frango inteiro, enquanto outros mercados possuem exigências específicas de cortes. Além disso, a realocação enfrenta barreiras logísticas, legais e rígidas normas fitossanitárias que variam de país para país, dificultando uma transição rápida de destino para a mercadoria.
Impacto no mercado interno brasileiro
Caso as exportações sejam severamente comprometidas, o excedente da produção poderá ser direcionado para o mercado interno brasileiro. Embora isso pudesse, em tese, aumentar a oferta doméstica, a alternativa traz desafios operacionais significativos para os frigoríficos.
Agentes do setor ressaltam que a carne destinada à exportação precisaria passar por um processo de adaptação para ser vendida nas gôndolas brasileiras. Isso inclui desde a troca de embalagens e etiquetas (muitas vezes escritas em árabe) até adequações técnicas de processamento, o que exige tempo e investimento das indústrias em um momento de crise.