Muito já se falou sobre como o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a UE (União Europeia), assinado no sábado passado (17/01) em Assunção, no Paraguai, elevará as trocas comerciais entre os dois blocos. Porém, para o governo brasileiro, um efeito indireto desejado é o aumento das exportações para outras regiões.
É isso o que projeta a Secex (Secretaria de Comércio Exterior), do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). À agência de notícias DW (Deutsche Welle), a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, disse que as exportações para destinos como os Estados Unidos ou a China aumentariam devido a um ganho de produtividade de empresas brasileiras, que terão a possibilidade de comprar a preços mais baixos insumos e bens de capital feitos na UE e usados para produzir itens no Brasil.
Um estudo feito pela Secex, divulgado pelo jornal Valor Econômico, projeta que, 20 anos após o início da vigência do acordo, as exportações brasileiras para a UE aumentarão 13% além do que aumentariam se não houvesse acordo. Mas haveria alta extra de exportações também para os Estados Unidos (2,6%) e para a China (1,6%).
"O aumento da produtividade no Brasil, associada a importações de insumos e bens de capital mais baratos, contribui para que as nossas exportações, também para outros destinos, cresçam", afirmou Prazeres. "O próprio setor de máquinas apoia o acordo, no espírito de que, para que se produzam máquinas no Brasil, você precisa de máquinas. E a União Europeia é desenvolvida tecnologicamente em maquinário de ponta."
É difícil projetar com precisão efeitos de longo prazo de acordos de livre comércio, já que eles podem alterar diversos fatores de produção nos países envolvidos, e os resultados devem ser vistos com cautela. Mas o estudo da Secex estima que, no horizonte de 20 anos, a indústria de transformação teria um crescimento extra nas exportações de 4,9%, o setor de serviços, de 3,2%, e a agropecuária, de 1,7%. Nas exportações apenas para a UE, as altas seriam, respectivamente, de 26,6%, 14,8% e de 6,7%.
Outros estudos projetam que alguns setores terão perdas com o acordo. Uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de 2024, por exemplo, prevê perdas para setores como veículos e peças, metais ferrosos, artigos de vestuário e acessórios e farmacêutico. No geral, no entanto, o estudo estima que o acordo contribuirá positivamente com o PIB brasileiro, em alta que chegaria a 0,46% em 2040, na comparação sem o tratado.
Prazeres defende que o acordo terá efeitos positivos não só na economia — mas também na geopolítica, por representar uma "mensagem poderosa para o mundo de que essas duas regiões acreditam em comércio, em investimentos, em democracia", e no meio ambiente, por incluir um capítulo adicional sobre desenvolvimento sustentável que deverá ser observado pelos países envolvidos.