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Tarifa menor dos EUA ao Brasil ainda traz perdas, diz especialista

Professor da FGV avalia que redução das tarifas dos EUA melhora posição relativa do Brasil, mas alerta que efeitos variam por setor e que ninguém sai ileso
26 fev 2026 às 18:18
Por: Agro Band
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de derrubar o tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump reacendeu o debate sobre os impactos da política comercial norte-americana sobre o Brasil. Embora a nova rodada de tarifas tenha sido fixada em 10% — abaixo dos 15% prometidos inicialmente —, representantes do setor produtivo avaliam que o cenário ainda exige cautela.

Por seis votos a três, a Corte manteve entendimento de instância inferior de que Trump extrapolou sua autoridade ao impor tarifas globais com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Para os ministros, medidas de “vasta importância econômica e política” exigem autorização clara do Congresso.

A decisão abriu espaço para uma reconfiguração tarifária. Segundo levantamento da plataforma Global Trade Alert, a alíquota média aplicada às exportações brasileiras, que havia chegado a cerca de 26,3%, caiu para 12,8% com a nova cobrança global.


Em 2025, no auge do tarifaço, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 6,6%, somando US$ 37,7 bilhões, enquanto as importações cresceram 11,3%, levando a um déficit de US$ 7,5 bilhões na balança comercial bilateral.

Pescados projetam retomada


Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), Eduardo Lobo, a suspensão das tarifas emergenciais — que chegaram a até 50% para o setor em 2025 — marca o início de uma recuperação.


Segundo ele, as sobretaxas provocaram perda de contratos internacionais, retração da piscicultura e redução de empregos em toda a cadeia produtiva. Com a reversão da medida, mesmo diante da possibilidade de manutenção de uma taxação em torno de 15%, o dirigente avalia que o Brasil volta a ter condições de competir no mercado norte-americano.


“Continuaremos fortes e competitivos. Estamos otimistas, embora cautelosos com eventuais novas medidas tarifárias”, afirmou Lobo.

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A expectativa da entidade é que as exportações brasileiras de pescados alcancem cerca de US$ 600 milhões no mercado global em 2026, com destaque para a tilápia, principal produto embarcado para os Estados Unidos. A Abipesca projeta ainda a recuperação de mais de 5 mil postos de trabalho ao longo do ano.

Fruticultura cobra previsibilidade

A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas) também recebeu a decisão da Corte com entusiasmo. Em nota, a entidade afirmou que a derrubada do tarifaço representa um sinal positivo em direção à previsibilidade e ao fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e EUA.


Segundo a associação, frutas como uva, melões e melancia não foram incluídas na última ordem executiva com lista de isenções divulgada pelos Estados Unidos, o que afetou diretamente a competitividade desses produtos. No caso da uva, uma das principais frutas da pauta exportadora brasileira para o mercado americano, houve queda significativa nos embarques após a imposição das tarifas.


A entidade reforçou que estabilidade, segurança jurídica e regras claras são essenciais para garantir competitividade aos produtores e geração de renda no campo.

“Menos pior”, avalia professor da FGV

Para o professor Cleveland Prates, da Fundação Getulio Vargas Direito SP, a redução das tarifas melhora a posição relativa do Brasil, mas não representa um ganho estrutural.


“Não é que ficou melhor. Ficou menos pior”, afirmou ao Band.com.br.


Segundo ele, quando as tarifas foram impostas de forma diferenciada, o Brasil perdeu competitividade. Com a uniformização da alíquota para diversos países, houve um reequilíbrio relativo. Ainda assim, os produtos brasileiros chegam mais caros ao mercado americano do que no período anterior ao início do tarifaço.


Prates pondera que os efeitos das tarifas variam conforme o setor e dependem do nível de concorrência no mercado dos Estados Unidos e da existência de fornecedores alternativos no comércio global.


“Todo aumento de imposto é distribuído entre consumidor, importador e produtor. O quanto vai ficar para cada um depende das condições de mercado. Ninguém sai ileso”, disse.


Na avaliação do professor, setores com maior concorrência internacional tendem a sofrer mais, enquanto segmentos com nichos específicos ou maior poder de barganha — como a indústria aeronáutica — podem absorver melhor os impactos. Já produtos com forte competição externa, como determinados pescados ou manufaturas tradicionais, enfrentam maior risco de perda de mercado.


Ele também destaca que a instabilidade gerada por mudanças frequentes na política comercial afeta decisões de investimento no médio e longo prazo.


“Você não constrói uma fábrica com base numa decisão pontual de um presidente. O investidor olha horizonte de 20, 30 anos. Incerteza reduz investimento, reduz emprego e renda”, afirmou.


Para Prates, a decisão da Suprema Corte sinaliza que o sistema institucional americano impõe limites ao Executivo, o que pode contribuir para maior previsibilidade. Ainda assim, ele avalia que o ambiente internacional segue marcado por incertezas e que o Brasil precisa aproveitar o momento para negociar melhor acordos comerciais e rever suas próprias barreiras, buscando ampliar competitividade interna.


Enquanto isso, setores exportadores comemoram o alívio parcial, mas mantêm cautela. A avaliação predominante é que o novo cenário não elimina perdas, apenas reduz os danos em relação ao período mais crítico do tarifaço.


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