Agro

Venezuela é vital para evitar um colapso no preço do arroz brasileiro

08 jan 2026 às 18:17

O mercado brasileiro de arroz terá na exportação seu principal pilar de sustentação de preços e rentabilidade ao longo de 2026, segundo projeções da consultoria Safras & Mercado. Com estoques de passagem (sobras da safra anterior) elevados e um consumo interno enfraquecido, o envio do cereal para o exterior deixa de ser uma estratégia complementar para se tornar o fator determinante no equilíbrio financeiro do setor.


A análise indica que o varejo brasileiro apresenta baixa capacidade de absorção do produto neste momento. Isso coloca o comércio internacional no centro da formação de preços para o produtor rural. Segundo Evandro Oliveira, analista e consultor da Safras, qualquer alteração nos destinos de escoamento do grão terá reflexos imediatos no bolso do produtor. A lógica é de oferta e demanda: se o mercado interno não consome tudo, é preciso vender para fora para evitar que o excesso de oferta derrube os preços.


Oliveira pondera que, neste cenário, o mercado internacional funciona como uma válvula de escape essencial para garantir margens mínimas de lucro para quem planta.


O papel da Venezuela

Um dos destaques do relatório é a consolidação da Venezuela como o maior importador do arroz em casca do Brasil na temporada comercial 2025/26. O país vizinho deve absorver volumes superiores a 165 mil toneladas. Para o setor, esse fluxo comercial é vital. Segundo a análise, as compras venezuelanas têm contribuído de forma decisiva para reduzir a pressão sobre os estoques nacionais, evitando um colapso nas cotações domésticas.

No entanto, o analista alerta para a vulnerabilidade dessa dependência. Embora o risco de interrupção nas compras seja considerado baixo no curto prazo, concentrar as exportações em um único destino sensível traz riscos. Qualquer problema logístico, financeiro ou político com a Venezuela poderia travar a liquidez interna, aumentando a oferta de arroz no Brasil e reforçando a tendência de queda nos preços.

Desafios no México e cotas de exportação

Outro mercado estratégico para o arroz brasileiro é o México. Historicamente, o país atua como um destino-chave em momentos em que o Brasil tem excedente de produção. Nas últimas cinco safras, a média de exportação para o mercado mexicano foi de 169,7 mil toneladas. O país tem capacidade para comprar muito mais, como ocorreu em 2022, quando os embarques brasileiros para lá alcançaram quase 447 mil toneladas.


Contudo, uma mudança nas regras comerciais traz preocupação para 2026. A introdução de uma cota limite de 200 mil toneladas altera a dinâmica do mercado. Segundo Oliveira, isso limita a "elasticidade exportadora" — ou seja, a capacidade do Brasil de ampliar as vendas para o México justamente quando mais precisa escoar a produção.


Concorrência acirrada nas Américas

Além da limitação de volume, a cota mexicana não é exclusiva do Brasil. Ela será disputada entre diversos exportadores das Américas, incluindo Estados Unidos, Uruguai, Paraguai e Argentina. Isso transforma o México em um cenário de concorrência direta por market share (fatia de mercado). A disputa aumenta a imprevisibilidade para os exportadores brasileiros.

O consultor da Safras finaliza explicando que, com essa barreira, o Brasil perde a capacidade de usar o México como uma válvula plena de ajuste em anos de superoferta. Mesmo que o país mantenha uma presença relevante naquele mercado, o risco de não conseguir embarcar todo o volume desejado aumenta, especialmente em momentos de maior pressão logística ou competitiva.