Aviso: este texto contém temas sensíveis, que podem servir de gatilho
A espanhola Noelia Castillo, de 25 anos, morreu hoje após passar por uma eutanásia legalmente autorizada, informou o jornal El País.
A jovem, que era paraplégica e esperava pela morte assistida há mais de um ano, morreu na noite de hoje (no horário local) em Barcelona, segundo o jornal espanhol. O procedimento ocorreu na residência sociosanitária Sant Pere de Ribes, onde Noelia residia, segundo confirmado ao El País por funcionários da unidade por volta das 20h locais (16h no horário de Brasília).
A associação ultrarreligiosa Advogados Cristãos, que tentou até o último momento impedir o processo a pedido do pai da jovem, também confirmou a morte dela pelas redes sociais. "A eutanásia de Noelia foi realizada. Pedimos orações por sua alma e por sua família. Que ela descanse em paz", publicou a entidade.
A jovem ficou paraplégica após se jogar do quinto andar de um prédio em outubro de 2022. Ainda conforme divulgado pelo jornal espanhol, Noelia relatou que passou por abusos e agressões sexuais antes da tentativa de suicídio. Conforme o El País, ela pediu a eutanásia depois da queda e teve o pedido aprovado em julho de 2024 por uma comissão pública catalã.
Noelia sofria de dores constantes e intenso sofrimento psicológico, conforme atestado pela Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, formada por juristas e profissionais de saúde. O órgão independente, que avaliou o caso da jovem e supervisiona o cumprimento da lei da eutanásia na Espanha, concluiu que seu caso não era "recuperável".
A espanhola, porém, teve de esperar 601 dias para que o benefício concedido a ela entrasse em vigor. Durante esse tempo, Noelia protagonizou, ainda que indiretamente, uma batalha judicial sem precedentes no país, iniciada por seu pai para revogar seu direito à morte assistida.
Representado por advogados cristãos, o pai da espanhola tentou impedir a eutanásia, mas cinco tribunais rejeitaram seu pedido; um juiz, poucas horas antes do procedimento de hoje, anulou a última tentativa de suspendê-lo. "Quero partir agora em paz e acabar com o sofrimento, ponto final", disse Noelha na tarça-feira (24), ao programa 'Y ahora Sonsoles', da emissora Antena 3.
Morte adiada e disputa judicial entre pai e filha
A eutanásia de Noelia estava marcada inicialmente para 2 de agosto de 2024, mas foi suspensa após um pedido do pai, Gerónimo Castillo. Segundo a mídia local, a solicitação abriu uma sequência de recursos que levou o caso a diferentes instâncias da Justiça.
Noelia disse que queria encerrar o processo sem a presença de familiares. "Não quero ninguém dentro, não quero que me vejam fechando os olhos", afirmou em entrevista ao programa 'Y ahora Sonsoles', da emissora Antena 3. Ela também relatou ter passado por sofrimento físico e emocional durante a decisão final de seu processo.
Do outro lado, a família de Noelia se opunha à eutanásia. Ela afirmou que se sentiu atacada ao comunicar a decisão em casa: "[Meu pai] me disse que eu não tinha coração, que não pensava nos outros, que era mentira tudo o que eu dizia. Me doeu".
Ao longo da disputa, a Justiça espanhola rejeitou o argumento de que Noelia não teria capacidade mental para decidir. O caso passou por um juizado de Barcelona e pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, que mantiveram a autorização, segundo o El País.
O Supremo Tribunal da Espanha recusou o recurso em janeiro, e o Tribunal Constitucional não adotou medidas para suspender o procedimento. O Tribunal Europeu de Direitos Humanos também não barrou a eutanásia, removendo a última tentativa de impedir a aplicação.
Entidade ultracatólica Abogados Cristianos, que assessorou o pai, fez campanha pública contra a decisão. "De verdade, alguém acha que essa garota que aparece maquiada, penteada e sorridente merece morrer?", escreveu o grupo em uma postagem no X.
O que Noelia contou sobre sua história
Noelia disse que enfrentou problemas familiares desde a adolescência e que recebeu tratamento psiquiátrico desde os 13 anos. Em entrevista ao programa espanhol, ela afirmou: "Nunca me senti compreendida, sempre tive problemas de convivência".
Ela também relatou episódios de abuso e agressões sexuais e disse que teve outras tentativas de suicídio antes de 2022. Segundo o El País, a jovem contou que a última agressão ocorreu pouco antes de ela se jogar do prédio. Ela, porém, não identificou seus agressores.
Centro de Valorização da Vida
Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV (Centro de Valorização da Vida) e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.