A crise no Oriente Médio gera reflexos diretos no mercado brasileiro de energia, resultando em uma queda de 60% na importação de combustíveis em comparação ao ano passado. O cenário, descrito pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) como um momento "excepcional de risco", já provoca o desabastecimento de diesel e gasolina em diversas regiões do país.
Mesmo com as refinarias nacionais operando em limite máximo, a oferta interna é insuficiente para suprir a demanda, forçando motoristas a enfrentarem filas e preços elevados, que chegam a variar entre R$ 6 e R$ 8 por litro.
Investigação sobre retenção de estoques e preços
No Rio de Janeiro, a Delegacia do Consumidor instaurou um inquérito para apurar possíveis crimes de abuso de poder econômico. A suspeita das autoridades é de que postos e distribuidoras estejam retendo estoques de forma estratégica para forçar um aumento ainda maior nos preços finais ao consumidor. Como parte das investigações, a Polícia Civil realizou diligências na refinaria de Duque de Caxias para analisar os dados de vendas dos últimos dias e identificar possíveis irregularidades no fluxo de distribuição.
O motorista de aplicativo João Batista relata a dificuldade em encontrar combustível comum, encontrando apenas a versão aditivada em diversos estabelecimentos. Para o supervisor de manutenção Bruno Lopes de Lima, a situação é crítica devido ao impacto financeiro imediato. A Petrobras, por sua vez, afirma que ampliou as entregas para as distribuidoras e mantém a produção em sua capacidade total para tentar mitigar a escassez.
Dependência do mercado externo e riscos logísticos
Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o Brasil mantém uma dependência estrutural da importação de derivados. Atualmente, cerca de 30% do diesel e 10% da gasolina consumidos no território nacional vêm do exterior, principalmente da Rússia e dos Estados Unidos. A Petrobras é a responsável direta por uma fatia que varia entre 20% e 40% desse volume importado.
Embora o bloqueio do Estreito de Ormuz não afete as rotas marítimas que abastecem o Brasil, a cotação internacional do barril deve pressionar os preços internos. Segundo o pesquisador da FGV Energia, João Victor Marques, o cenário pode se agravar caso fornecedores globais, como a Rússia, optem por redirecionar remessas para grandes mercados asiáticos, como China e Índia, em detrimento do fornecimento para o Brasil.
Sérgio Araújo, presidente executivo da Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis, avalia que o abastecimento está garantido até o início de abril, dado que os volumes previstos para o período já estavam em trânsito. No entanto, ele alerta que as projeções de importação para o mês de abril ainda são consideradas baixas, o que mantém o setor em estado de alerta.