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Prefeituras distribuem canetas emagrecedoras no SUS sem aval do Ministério

19 mar 2026 às 08:47

Mesmo diante de uma recomendação contrária do Ministério da Saúde, diversas prefeituras brasileiras decidiram iniciar a distribuição de medicamentos análogos ao GLP-1, as chamadas "canetas emagrecedoras", na rede pública de saúde. A decisão ocorre em pleno ano eleitoral e levanta debates sobre a viabilidade financeira e a eficácia da medida, uma vez que uma comissão da pasta federal alertou para custos que podem chegar a R$ 8 bilhões anuais, além dos efeitos colaterais envolvidos.


Critérios de distribuição no Rio de Janeiro


Na capital fluminense, o programa terá início no próximo mês, concentrado inicialmente em uma única unidade de saúde. De acordo com o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, o foco será restrito a pacientes com obesidade grau 3. Para ter acesso ao medicamento, o cidadão precisa cumprir critérios rigorosos: ter registro ativo na Clínica da Família, apresentar Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40 e possuir diagnóstico de diabetes ou outras comorbidades. Além disso, a participação no programa Academia Carioca, seja de forma presencial ou virtual, é obrigatória.


Outras cidades, como Cuiabá e Sorocaba, também estabeleceram protocolos próprios. Na capital mato-grossense, o tratamento combina o fármaco com atividade física obrigatória. Já no interior paulista, a prefeitura prevê a aplicação em casos específicos, sempre sob monitoramento médico contínuo.


Financiamento e quebra de patente


O custeio desses programas nas cidades do Rio e de Sorocaba não sairá do orçamento ordinário da saúde, mas sim de verbas provenientes de emendas parlamentares. O anúncio dessas políticas locais coincide com a proximidade da quebra da patente da semaglutida (princípio ativo do Ozempic) no Brasil. A expectativa é que a entrada de versões genéricas no mercado reduza drasticamente o preço atual, que pode atingir a marca de R$ 2 mil por unidade.


Alerta de especialistas sobre a "bala de prata"


Apesar da popularidade do medicamento, vozes da comunidade médica expressam cautela. Para a médica sanitarista da UFRJ, Ligia Bahia, o remédio está sendo apresentado erroneamente como uma "bala de prata" para a obesidade. Segundo a especialista, o uso isolado da substância não é capaz de reduzir os índices populacionais da doença sem um conjunto amplo de estratégias de saúde pública.


Outro ponto crítico destacado pela sanitarista é a irregularidade no fornecimento de insumos no Sistema Único de Saúde (SUS). A médica alerta que o uso intermitente — quando o paciente inicia o tratamento e é obrigado a interrompê-lo por falta de estoque na rede — é um problema crônico que certamente afetará a distribuição dessas canetas, comprometendo a eficácia terapêutica e desperdiçando recursos públicos.

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