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Silvia Borba canta as 'Dores de Amores' e resgata clássicos da música de fossa

O ritmo é lento, quase acompanhando os batimentos cardíacos de quem sofre
16 jun 2026 às 12:06
Por: Portal Tarobá
Foto: Divulgação

Na próxima quinta-feira (18), a partir das 20h30, Silvia Borba sobe ao palco do Bar Valentino para revisitar clássicos da música brasileira — temas que acompanham paixões avassaladoras e amores do tipo que rasgam o peito. O show traz o melhor da "música de fossa" do cancioneiro nacional, com tintas carregadas de sentimento e bom humor.


O repertório viaja pelas décadas de 1950, 60 e 70, relembrando intérpretes icônicas como Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Nora Ney e Maysa, além de mestres como Tom Jobim, Ivan Lins e Vinicius de Moraes. O projeto é fruto de uma conversa de mesa de bar entre uma das vozes mais potentes da cena local e o empresário Valdomiro Chammé, sócio proprietário do Bar Valentino, espaço que há mais de 40 anos apoia a boemia e os amores desastrosos. Os ingressos antecipados custam R$ 30,00 e já estão à venda na plataforma Sympla.


A cantora conta que a escolha das músicas que compõem o show partiu de uma lista enorme sugerida pelo próprio Chammé. A lógica, acatada de imediato por Silvia Borba, é apresentar canções que falam das nossas “Dores de Amores”, nome que também batiza o espetáculo. “São músicas de um tempo em que sentíamos com mais intensidade. Acho que hoje precisamos de mais sentimentos profundos. O mar de superficialidade em que estamos mergulhados tira nossa humanidade, e o caminho de volta está no encontro com o que é humano”, comenta a artista.


As composições também resgatam memórias de uma vida intensa. “Todas são carregadas de lembranças e muita emoção. Cada uma das sugestões despertou em mim recordações e sentimentos que eu já tinha esquecido”, confessa. “Este repertório me fez reconhecer o quanto a música brasileira formou o meu caráter, com letras que sempre me ensinaram sobre a vida”, diz. No palco, Silvia Borba se apresenta acompanhada por Marcos Santos (violão e guitarra), Gabriel Zara (contrabaixo e direção musical), Fabio Caetano (piano elétrico) e André Coudeiro (percuteria). 

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A era de ouro da 'dor de cotovelo' 


A música de fossa, que tem o samba-canção como sua era de ouro, consolidou-se musicalmente entre o final dos anos 1940 e o final dos anos 1950, tornando-se um dos pilares mais profundos da identidade musical brasileira. É a tradução sonora do abandono, da melancolia urbana, do amor hiperbólico e do sofrimento existencial. A expressão "estar na fossa" descreve perfeitamente esse estado de profunda tristeza crônica, geralmente motivada por desilusões amorosas.


As canções versam sobre a solidão, a traição, o ciúme, a noite como refúgio e o "sofrer por amor" como validação da própria existência. O ritmo é lento, quase acompanhando os batimentos cardíacos de quem sofre. Os arranjos originais eram marcados por orquestrações densas e uso expressivo de cordas, exigindo interpretações vocais carregadas de dramaticidade — algo que, para as cordas vocais da cantora pernambucana radicada em Londrina, flui com a naturalidade de quem frequenta as rodas de samba e choro da cidade.


O roteiro do show, no entanto, vai além dessa época dourada e mostra que o fundo do poço emocional atravessa gerações. O espetáculo começa com a versão de Lamartine Babo para o bolero mexicano “Perfídia” (de Alberto Dominguez), considerada a certidão de nascimento da atmosfera de fossa no Brasil. “Demais”, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira (1954) — imortalizada por Maysa em 1957 —, também está no setlist. A letra é a própria definição desse estado de espírito: "Todos acham que eu falo demais / Que eu bebo demais...".


Avançando no tempo, o show traz “Dentro de mim mora um anjo”, de Sueli Costa e Cacaso (1975), gravada originalmente por Fafá de Belém em seu disco de estreia. A faixa reflete a "fossa existencial" do período da ditadura militar, em que a censura e o sufocamento político se misturavam às dores do indivíduo. Já dos anos 1980, Silvia destaca “Bilhete”, de Ivan Lins e Vitor Martins, imortalizada de forma visceral por Nana Caymmi, que combina uma sofisticação harmônica influenciada pelo jazz a um lirismo direto e dilacerante. Todas essas obras provam que, no Brasil, sofrer também é uma forma refinada de fazer arte.


Considerada um "lado B" psicológico fundamental da nossa cultura, a música de fossa mostra que o país da alegria contagiante também guarda uma vocação profunda para a melancolia. “Eu espero que as pessoas que entrarem em contato com esse repertório pela primeira vez, através de mim, sejam impactadas como eu fui. Gostaria muito que as novas gerações sentissem tudo isso com a mesma profundidade”, deseja Silvia.



Voz de resistência 


Dizendo preferir "cantar a tristeza do que ficar triste", Silvia Borba interpreta com maestria a complexidade do cotidiano. A cantora e instrumentista conquistou forte visibilidade nacional ao participar das célebres lives da cantora Teresa Cristina durante a pandemia. Essa projeção rendeu convites de grande relevância, como sua participação no programa Samba na Gamboa (TV Brasil), consolidando seu nome entre os grandes talentos do samba contemporâneo.


Um dos pilares de sua carreira é a exaltação da força da mulher na música. Em projetos como o álbum Fala Mulher, ela busca ativamente valorizar o papel da mulher como compositora, intérprete e fazedora de cultura. Idealizadora e protagonista dos espetáculos Araca: Arquiduquesa do Encantado (homenagem a Aracy de Almeida) e Cantoras do Rádio, Silvia faz circular a memória nacional dando novos contornos à "dor de cotovelo".


O show no Bar Valentino é uma oportunidade imperdível de ouvir essa intérprete da resistência, em uma conexão profunda com os seus tesouros mais preciosos da música brasileira.


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