O confronto entre indígenas e policiais registrado na BR-277, em Nova Laranjeiras, voltou a colocar a Terra Indígena Rio das Cobras no centro das atenções. As imagens do episódio rapidamente se espalharam pelas redes sociais e reacenderam o debate sobre os saques de cargas registrados há anos na região.
O problema existe e é reconhecido pelas próprias lideranças indígenas e pelas autoridades locais. Mas reduzir uma comunidade inteira aos episódios de violência registrados às margens da rodovia é deixar de enxergar uma realidade muito maior.
Por isso, nossa equipe foi até a Terra Indígena Rio das Cobras para conhecer de perto quem vive no território e entender os desafios enfrentados diariamente por milhares de indígenas.
A viagem leva até uma das regiões mais importantes para os povos originários do Paraná. Com aproximadamente 18 mil hectares, o equivalente a quase 12 mil alqueires, o território reúne cerca de 3.450 pessoas, número que representa aproximadamente 30% da população de Nova Laranjeiras.
São 14 aldeias, formadas principalmente pelas etnias Kaingang e Guarani.
Os Guarani vivem em áreas mais afastadas do centro urbano, próximas à divisa com Espigão Alto do Iguaçu. Já os Kaingang mantêm maior contato com as cidades e estão presentes na maioria das aldeias.
Entre elas está a Aldeia Trevo, localizada justamente no encontro da BR-277 com a PR-473. É a maior comunidade do território e também uma das que mais sente os efeitos da proximidade com as rodovias.
Um problema que também incomoda os indígenas
Antes de entrar na aldeia, conversamos com Neuli Olívio, assessor de articulação política da Prefeitura de Nova Laranjeiras. Ele acompanha as demandas da população indígena junto ao poder público.
Neuli reconhece que os saques de cargas são um problema antigo e que o episódio mais recente reforçou a necessidade de novas ações para combater os crimes.
A mesma posição é defendida pela Secretaria de Assuntos Indígenas do município. Segundo as autoridades, as lideranças indígenas também repudiam a prática e defendem que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados.
Mas há uma preocupação em fazer uma distinção importante: segundo os representantes ouvidos pela reportagem, o grupo envolvido nos crimes seria pequeno e não representaria a comunidade como um todo. Eles também afirmam que há participação de pessoas que não são indígenas e até de indivíduos que chegam de outros municípios para comprar produtos provenientes dos saques.
O resultado, segundo eles, acaba sendo sentido por toda a comunidade, que passa a enfrentar ainda mais preconceito por causa das ações de uma parcela pequena dos moradores.
Uma história que atravessa gerações
A Terra Indígena Rio das Cobras tem mais de 130 anos de história. Ao longo desse período, a comunidade passou por profundas transformações, inclusive com a chegada de uma das principais rodovias do Paraná.
A BR-277 trouxe desenvolvimento e ligação com outras regiões, mas também criou novos obstáculos para quem vive no território.
Gilmar, vice-cacique da comunidade, conta que o contato cada vez maior com a população não indígena também trouxe problemas. Entre eles estão doenças, mudanças nos hábitos e dificuldades provocadas pela própria rodovia.
O fluxo intenso de veículos também resultou em acidentes e mortes envolvendo moradores que precisam atravessar ou circular pela região.
Outro problema apontado pelos indígenas é a dificuldade de acesso à alimentação. A necessidade de buscar recursos fora do território aumentou o contato com as cidades e, segundo os moradores, contribuiu para o surgimento de problemas como o alcoolismo.
Mas a história da comunidade não é formada apenas por dificuldades.
Saúde com olhar para a cultura
Dentro do território, os serviços de saúde também precisam considerar as características próprias das comunidades indígenas.
Kelly, enfermeira que trabalha há 14 anos na Terra Indígena, explica que o atendimento precisa levar em conta a cultura, os costumes e a realidade das famílias.
A ideia é oferecer assistência sem deixar de respeitar as particularidades de quem vive nas aldeias.
Na educação, o mesmo princípio é seguido.
A escola como espaço de preservação
O Colégio Candoca recebe crianças desde a educação infantil. Para muitos alunos, a escola é mais do que um espaço de aprendizado. É também um lugar de convivência, alimentação e contato com outras crianças. Adriana conhece bem essa realidade porque já foi aluna da própria comunidade. Depois, fez graduação, tornou-se professora e voltou para a aldeia.
Há três anos, ela trabalha ensinando conteúdos tradicionais, mas também ajudando a preservar aquilo que diferencia a comunidade: a língua e a cultura Kaingang.
Lendas, idiomas, artesanato e costumes são transmitidos para as novas gerações dentro da própria escola.
Cultura que também gera renda
Essa preservação aparece em diversos pontos do território.
Balaios, filtros dos sonhos, arcos e flechas são produzidos pelas famílias e vendidos, inclusive para quem passa pela rodovia.
O artesanato representa uma fonte complementar de renda e, ao mesmo tempo, leva a cultura Kaingang e Guarani para outras partes do país.
Para os indígenas ouvidos pela reportagem, esse trabalho é ainda mais importante porque não existe uma renda governamental específica capaz de atender todas as necessidades das famílias.
O artesanato acaba sendo uma forma de complementar o orçamento e manter viva uma tradição que atravessa gerações.
Desafios que continuam
Apesar dos avanços, ainda existem reivindicações consideradas urgentes pela comunidade.
Uma delas é a criação de mais vagas em creches. A falta de estrutura para deixar as crianças dificulta principalmente a rotina de mães que criam os filhos sozinhas e precisam trabalhar.
É uma demanda que, para os moradores, poderia melhorar diretamente a qualidade de vida das famílias.
Entre moradias simples, postos de saúde, escolas, artesanato e tradições preservadas, a Terra Indígena Rio das Cobras revela uma realidade muito mais complexa do que aquela apresentada nos vídeos de conflitos às margens da BR-277.
A rodovia continua cortando o território e fazendo parte da rotina de milhares de pessoas. Os problemas relacionados aos saques precisam ser enfrentados e os responsáveis, identificados.
Mas, dentro das aldeias, vivem milhares de pessoas que trabalham, estudam, cuidam dos filhos e tentam preservar uma cultura construída ao longo de gerações.
Uma comunidade que, apesar dos desafios, quer ser conhecida não apenas pelo que uma minoria faz às margens da rodovia, mas principalmente por aquilo que a maioria constrói todos os dias.