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OMS reclassifica defensivo agrícola como "provável cancerígeno"

Sexto herbicida mais vendido no país, usado na soja e no milho, entra em nova lista de alerta global. Pesquisas da Unicamp detectaram a substância em 100% das amostras do Rio Atibaia
23 dez 2025 às 11:16
Por: Band
Foto: Sindan

Uma decisão internacional acendeu um sinal de alerta para o agronegócio e para a saúde pública brasileira. A Agência Internacional de Pesquisas sobre Câncer (IARC), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS), reclassificou a atrazina como uma substância com "provável potencial carcinogênico" para humanos.


A mudança de status foi definida após uma reunião realizada em novembro, em Lyon (França), que contou com 22 cientistas de 12 países. A atrazina é, atualmente, o sexto defensivo químico mais vendido no Brasil, sendo amplamente utilizada há mais de 40 anos no controle de plantas daninhas em lavouras de soja, milho e cana-de-açúcar.


O que muda com a nova classificação

Até então, a avaliação da IARC sobre a atrazina datava de 1998, quando a substância era considerada segura por falta de evidências científicas contrárias. Agora, o cenário mudou. Segundo o Volume 140 das Monografias da IARC, a nova classificação no grupo 2A ("provavelmente carcinogênico") baseia-se em três pilares:

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  • Evidências limitadas de câncer em humanos (associações positivas para linfoma não Hodgkin);
  • Evidências suficientes de câncer em animais de laboratório;
  • Fortes evidências sobre os mecanismos de atuação da substância em sistemas experimentais.

Além da atrazina, o herbicida alaclor também recebeu a mesma classificação, enquanto o fungicida vinclozolin foi listado como "possível" cancerígeno. Vale lembrar que a atrazina já é banida em toda a União Europeia, no Reino Unido e em diversos países africanos, mas segue com registro ativo e uso massivo no Brasil.


Contaminação "invisível" nas águas de SP

A cientista brasileira Cassiana Montagner, coordenadora do Laboratório de Química Ambiental da Unicamp, é uma das autoras do artigo publicado na revista The Lancet Oncology que detalha essas conclusões. No Brasil, ela lidera o projeto "Plast-Agrotox", financiado pela Fapesp, que monitora o destino desses compostos na natureza.


Os dados locais são preocupantes. O doutorando Luís Felipe Lobo, orientado por Montagner, analisou a água da sub-bacia do rio Atibaia — responsável pelo abastecimento da região de Campinas e parte do Sistema Cantareira (que atende a Grande São Paulo).


Em resultados preliminares obtidos ao longo de 2025, o pesquisador encontrou atrazina em 100% dos pontos de coleta. Embora as concentrações estejam dentro dos limites que a legislação brasileira atual considera "seguros", a nova classificação da OMS coloca essa segurança em xeque.


O desafio do tratamento da água

Outro ponto crítico levantado pelos pesquisadores é a ineficiência dos sistemas tradicionais de limpeza da água para remover esses químicos. A estudante Isabela Bedani, que também integra o grupo da Unicamp, alerta que as redes de saneamento básico atuais não eliminam a atrazina.

Pior: o processo de tratamento pode gerar "subprodutos" — compostos derivados da degradação do agrotóxico — que muitas vezes são mais tóxicos que a substância original.

O efeito "coquetel" com microplásticos

A pesquisa também investiga como a atrazina interage com outros poluentes modernos, como os microplásticos. A pós-doutoranda Mariana Dias estuda a capacidade de materiais como a poliamida (usada em roupas esportivas) e o polietileno (embalagens) de "sorver" o agrotóxico.


O termo "sorver", na química, significa que o plástico carrega a molécula do veneno em sua superfície. Estudos preliminares mostram que a poliamida tem alta capacidade de reter a atrazina, transportando-a para locais onde originalmente ela não existiria e criando um "coquetel" químico de consequências ainda desconhecidas para o meio ambiente e para a saúde humana.


Para Montagner, a atrazina é um poluente onipresente. "É uma contaminação invisível que precisa ser priorizada com urgência, especialmente diante da nova reclassificação feita pela OMS", conclui a pesquisadora.

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