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Economia

'Não existe ambiente para um golpe militar', diz Ricardo Lacerda

21 out 2018 às 12:25
Por: Estadão Conteúdo

Sócio-fundador do banco de investimento BR Partners e ex-presidente do Goldman Sachs no Brasil, Ricardo Lacerda dá como certa a vitória de Jair Bolsonaro. Ele diz que há pontos nebulosos sobre o futuro governo, mas que não vê risco à democracia. "Não existe ambiente para golpe ou governo militar. A sociedade não quer".

Segundo ele, o mercado está mais otimista do que deveria, mas, mesmo se Bolsonaro for menos reformista do que o esperado, não será "o fim do mundo". Lacerda votará nulo e classifica como "bullying" a pressão de setores da sociedade pelo voto contrário a Bolsonaro. "Tenho condições de exercer minha cidadania não legitimando a desfaçatez de um lado nem a intolerância de outro."

Vê espaço para virada do PT?

A eleição está absolutamente definida. Há um questionamento da sociedade sobre erros do PT: da política econômica equivocada, do envolvimento em casos de corrupção, do apoio a regimes como o da Venezuela. Surpreendeu o fato de Haddad não ter buscado o centro. É uma das figuras mais ponderadas do PT, fez gestão na Prefeitura de São Paulo de razoável para boa. Mas o debate sobre as qualidades dele não chegou a transparecer. A eleição foi conduzida sobre o volta do PT ou não. E a sociedade claramente refutou essa ideia. Bolsonaro arregimentou eleitores que não são seus, enquanto o PT ficou na conversa mole de visitar Lula em Curitiba.

Mas o mercado poderia ser convencido a apoiar Haddad?

O mercado preferia Alckmin, Amoêdo e Meirelles. Não foram competitivos e os votos migraram para Bolsonaro. Mas o definidor é a rejeição do PT junto às massas. A incapacidade de reconhecer erros, de mudar o discurso, de colocar caras novas, de apresentar propostas que interessem ao País e não apenas ao partido. Erraram muito e estão colhendo o resultado nas urnas.

Por que o mercado reage bem ao favoritismo de Bolsonaro?


O mercado enxergava que qualquer coisa seria melhor do que a volta do PT. Bolsonaro dá sinais desencontrados. Por um lado, houve evoluções: compromisso de respeitar a Constituição, de ter espírito democrático no governo. É muito positiva a confirmação de Paulo Guedes na Fazenda. Agora, Guedes não emite opinião desde o primeiro turno. E as opiniões do lado do Bolsonaro incluem sinais negativos como defesa de 13.º para o Bolsa Família, veto à privatização da Petrobrás, declarações desencontradas sobre a Previdência. Não está claro o grau de liberalismo. Teremos o Bolsonaro de Guedes ou o Bolsonaro do discurso historicamente populista e estatista?

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O mercado não reage a isso?

Acho que o mercado está excessivamente otimista com a agenda liberal e reformista de Bolsonaro. Mas também não acho que, se ele for menos reformista, será o fim do mundo. O mercado se ajustará e teremos mudança na curva da dívida um pouco mais à frente.

O que será essencial?

Há três formas de resolver a crise fiscal: aumento de impostos, que ele disse que não fará, corte de gastos e processo agressivo de privatização. Precisamos ver. Não acredito no discurso de que vamos zerar déficit público vendendo imóveis. Levantar R$ 1 trilhão em imóveis da União não é realista.

Como os mercados devem reagir nos próximos meses?

Vamos ver a continuidade desse rally de alívio no mercado. Boa parte da correção já está no preço, com a expectativa de vitória do Bolsonaro. O que não está no preço é o grau de liberalismo de seu governo. Se ele for pelo lado populista, o mercado vai azedar um pouco mais.

Se for governo reformista, vê a volta do grau de investimento?

Está muito longe. Não vejo possibilidade de recuperar o grau de investimento dentro do primeiro mandato de Bolsonaro. A não ser que seja um governo ultra reformista e privatista. Se tudo for bem feito, é algo para quatro, cinco anos.

A imagem negativa de Bolsonaro no exterior pode atrapalhar a atração de investimentos?

O nível de investimento e o interesse seguem altos. Mas obviamente o discurso agressivo de direita do Bolsonaro assusta as pessoas. Elas estão tentando entender que tipo de governo teremos, se será um governo de inspiração democrática, se será reformista. Tudo isso ainda está nebuloso.

Vê risco à democracia?

Os dois candidatos iniciaram a campanha com discursos radicais. Há muito no discurso deles que assusta. Do lado do Bolsonaro, em relação a minorias e ao respeito às instituições democráticas. De Haddad, em relação a apoio a regimes totalitários. Não acredito que nenhum coloque em risco a democracia. Não existe ambiente para golpe ou um governo militar. A sociedade não quer isso.

Em quem o senhor votará?

Sou filiado ao Novo e, como meu partido, me manterei neutro. Tenho condições de exercer minha cidadania não legitimando a desfaçatez de um lado nem a intolerância de outro. É importante depois ajudar no que for possível. Não tenho preconceito em relação a Bolsonaro ou Haddad se colocarem propostas boas.

Eleitores contrários a Bolsonaro dizem que o voto nulo referenda o discurso do deputado.

É um bullying que tem sido feito desde o início - ora por parte dos eleitores do Haddad, ora do Bolsonaro. Sinto-me perfeitamente confortável de participar da eleição e da democracia sem necessariamente escolher um candidato, porque sinto que nenhum dos dois está alinhado com aquilo que espero. Pior do que não votar num candidato é, a partir do primeiro dia, combater quem for eleito. Não terei essa atitude. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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