A agricultura familiar respondeu por quase oito em cada dez contratos firmados no Plano Safra 2025/2026. De acordo com levantamento consolidado pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) contabilizou 1,82 milhão de operações entre julho de 2025 e maio de 2026. O balanço indica que a categoria liderou a procura por crédito rural, concentrando a maior parte dos 2,31 milhões de contratos totais registrados no ciclo antes do encerramento oficial da safra.
Até o período analisado, o Plano Safra movimentou R$ 494 bilhões em financiamentos no país. Do volume financeiro total efetivamente contratado pelos produtores nas agências bancárias e cooperativas, R$ 61,1 bilhões foram destinados à agricultura familiar por meio do Pronaf. A fatia voltada para a agricultura empresarial somou R$ 432,9 bilhões no mesmo intervalo de tempo. Os recursos liberados pelo governo federal serviram para financiar o plantio, a armazenagem de grãos, a industrialização e a compra de máquinas e equipamentos.
Na divisão interna da agricultura familiar, os financiamentos voltados para investimentos responderam por 1,37 milhão de contratos e R$ 31 bilhões. Já as operações de custeio – verba destinada a cobrir as despesas diárias do ciclo produtivo, como sementes e fertilizantes – movimentaram R$ 28,1 bilhões em 448,6 mil operações. Os créditos para a industrialização cresceram 10,3% em relação ao ciclo anterior, alcançando R$ 1,7 bilhão. O valor médio das operações contratadas no âmbito do Pronaf foi de R$ 33,5 mil.
Financiamento empresarial e o papel do fomento
Na agricultura empresarial, excluídos os números do Pronaf, as concessões de crédito rural atingiram R$ 432,9 bilhões no período. O levantamento técnico destaca as operações com Cédula de Produto Rural (CPR), que movimentaram R$ 185,2 bilhões. A CPR é um título emitido pelo produtor para vender antecipadamente sua safra em troca de recursos. O custeio totalizou R$ 137,6 bilhões, os investimentos somaram R$ 46,1 bilhões, as linhas de comercialização registraram R$ 32,8 bilhões e a industrialização alcançou R$ 31,5 bilhões.
O estudo da associação aponta que o Sistema Nacional de Fomento (SNF) foi o pilar decisivo para transformar as verbas anunciadas pelo governo em crédito real na ponta. Na agricultura familiar, as instituições integrantes do SNF operaram 97,6% das operações do Pronaf e 91,5% do volume financeiro, o equivalente a R$ 55,88 bilhões. Na agricultura empresarial, dos R$ 48,88 bilhões em recursos equalizáveis concedidos até maio de 2026, 96,7% foram operados por bancos e cooperativas do sistema de fomento. Recursos equalizáveis são linhas subsidiadas nas quais o Tesouro Nacional cobre parte dos juros para baratear o crédito ao produtor.
Ranking das instituições e o crédito regional
Entre as 14 instituições financeiras que operam os recursos equalizados do Plano Safra, o Banco do Brasil liderou o volume de concessões com R$ 14,54 bilhões em operações até maio de 2026. A cooperativa de crédito Sicredi apareceu na segunda colocação, com R$ 8,62 bilhões, seguida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com R$ 8,26 bilhões. O sistema Sicoob registrou R$ 8,06 bilhões, a Cresol movimentou R$ 3,67 bilhões e a Caixa Econômica Federal fechou o grupo com R$ 2,28 bilhões em recursos liberados.
Como exemplo de impacto regionalizado, o Banco do Nordeste (BNB) liberou R$ 22,5 bilhões em crédito rural no âmbito do Plano Safra por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). A área de atuação engloba os nove estados nordestinos e parcelas territoriais de Minas Gerais e do Espírito Santo. Desse montante regional, R$ 11,9 bilhões atenderam diretamente a pequenas propriedades da agricultura familiar, resultando em cerca de 836 mil contratações ao longo do ciclo.
Para a diretora executiva em exercício da ABDE, Cristiane Viturino, o Plano Safra funciona como uma política pública que atende a diferentes perfis de produtores e precisa ser analisado em sua totalidade. Ela avalia que os resultados unificados da agricultura familiar e empresarial provam que as instituições financeiras de fomento desempenham papel decisivo para converter anúncios governamentais em crédito efetivo, impulsionando a produção de alimentos, geração de renda e emprego em todas as regiões brasileiras.