O agronegócio brasileiro está em estado de atenção com os desdobramentos geopolíticos que podem impactar diretamente a balança comercial do país. A recente retórica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçando impor tarifas severas a nações que mantêm relações comerciais com o Irã, acendeu um sinal de alerta entre os exportadores nacionais.
No dia 12 de janeiro de 2026, Donald Trump anunciou uma tarifa de 25% sobre todas as exportações para os EUA de qualquer país que mantenha relações comerciais ("faça negócios") com o Irã. Essa medida foi uma resposta direta aos protestos contra o regime iraniano e à repressão em Teerã.
O país persa é um dos parceiros mais estratégicos para o Brasil no Oriente Médio, especialmente para o escoamento de grãos. O risco de sanções norte-americanas coloca em xeque um fluxo comercial que movimentou cerca de US$ 3 bilhões apenas no último ano.
A força do milho na pauta exportadora
Segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), o Irã se consolidou como um destino vital para o milho brasileiro. Após uma retomada de crescimento em 2024, quando o Brasil enviou 4,3 milhões de toneladas do cereal ao país, o comércio bilateral deu um salto expressivo no ciclo seguinte. Em 2025, o volume exportado de milho mais que dobrou, ultrapassando a marca de 9 milhões de toneladas.
Esse volume não é apenas estatística; ele representa renda para o produtor rural e garantia de escoamento da safra. Além do milho, a pauta de exportações para o Irã é composta majoritariamente por soja (tanto em grão quanto em farelo), açúcar e carne bovina. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam que o complexo de grãos responde historicamente por mais de 80% das vendas ao mercado iraniano.
Entenda o risco das sanções
O mercado internacional opera sob regras complexas de diplomacia e economia. Quando uma potência como os Estados Unidos ameaça "taxar quem negocia" com um país sancionado, cria-se uma barreira indireta. No cenário atual, Trump indicou a possibilidade de aplicar tarifas de até 100% sobre produtos de países que desafiem a hegemonia do dólar ou mantenham suporte econômico a nações rivais, como o Irã.
Para o agronegócio brasileiro, isso significa que continuar vendendo para Teerã pode custar caro nas relações com Washington. O Brasil, historicamente neutro e pragmático, pode se ver forçado a escolher entre manter um cliente fiel (Irã) ou evitar atritos com um dos seus maiores compradores globais (EUA).
Se as ameaças se concretizarem, o milho brasileiro perderia competitividade. Encontrar um novo destino para 9 milhões de toneladas de grãos da noite para o dia não é uma tarefa simples e poderia gerar um excesso de oferta no mercado interno, derrubando os preços pagos ao produtor.
O peso da recuperação econômica
O momento é delicado justamente porque as relações comerciais Brasil-Irã vinham em uma curva ascendente. O ano de 2023 havia registrado um recuo nas trocas, mas 2024 marcou o início da recuperação que culminou nos números robustos de 2025. Analistas de mercado avaliam que a interrupção desse fluxo afetaria não apenas os grandes traders (empresas exportadoras), mas toda a cadeia produtiva, desde o fornecedor de insumos até o transportador rodoviário.
O açúcar e a carne bovina, embora em volumes menores que os grãos, também são itens essenciais na dieta iraniana fornecidos pelo Brasil. A perda desse market share (fatia de mercado) abriria espaço para concorrentes que não sofrem a mesma pressão diplomática ou que possuem acordos bilaterais diferenciados.
Por enquanto, o setor adota cautela. As entidades de classe e o governo brasileiro acompanham se a retórica de Trump se transformará em medida oficial. Até lá, a ordem no campo é continuar produzindo, mas com um olho atento ao noticiário internacional.