O Brasil precisa ampliar o processamento interno da soja e fortalecer o mercado de biocombustíveis para agregar valor à produção agrícola e impulsionar a indústria nacional. A avaliação é do ex-ministro da Agricultura e colunista da BandNews TV, Antonio Cabrera, que aponta diferenças entre o modelo brasileiro e o de outras grandes economias agrícolas.
Segundo Cabrera, os Estados Unidos processam cerca de 62% da soja colhida no país, enquanto o Brasil, maior produtor mundial da commodity, industrializa aproximadamente 35% da própria safra.
Na avaliação do ex-ministro, o avanço dos biocombustíveis pode estimular novos investimentos industriais, ampliar a demanda interna pela soja e reduzir a dependência das exportações de grãos in natura.
PROCESSAMENTO PODERIA CHEGAR A 112 MILHÕES DE TONELADAS
Cabrera estima que, se o Brasil alcançasse uma taxa de processamento semelhante à dos Estados Unidos, o volume de soja beneficiado internamente poderia passar de 67 milhões para quase 112 milhões de toneladas.
Isso representaria cerca de 45 milhões de toneladas adicionais processadas pela indústria nacional, ampliando a produção de derivados e o potencial de geração de empregos e renda nas regiões produtoras.
O ex-ministro também destaca que o aumento do processamento poderia fortalecer a cadeia de biocombustíveis e criar novas oportunidades para o agronegócio brasileiro.
BIOCOMBUSTÍVEIS SÃO APONTADOS COMO CAMINHO
Na análise de Cabrera, os Estados Unidos demonstram como a demanda por biocombustíveis pode estimular a atividade industrial. Ele cita projeções para o mercado norte-americano em 2026 que indicam crescimento do consumo de biodiesel.
O especialista também menciona a Indonésia, que utiliza uma mistura de 50% de biodiesel ao diesel de origem fóssil, conhecida como B50.
Para Cabrera, o Brasil tem condições de ampliar gradualmente a participação do biodiesel na matriz energética, com misturas como B20 ou B30, desde que haja políticas públicas e investimentos que sustentem a expansão.
O aumento da mistura obrigatória também poderia ampliar o mercado interno para os derivados da soja e reduzir a exposição dos produtores às oscilações da demanda internacional.
SEGURO RURAL É OUTRO DESAFIO
Além da industrialização, Cabrera aponta o seguro rural como um dos gargalos do agronegócio brasileiro.
Segundo os dados citados pelo ex-ministro, apenas 3,3% da área agrícola do país conta com a proteção do programa federal de subvenção ao seguro rural.
Na comparação apresentada por ele, a China estabeleceu como meta ampliar a cobertura do seguro para aproximadamente 90% das áreas cultivadas com arroz, trigo e milho.
O seguro rural ajuda a reduzir os prejuízos dos produtores diante de eventos climáticos extremos, como secas, geadas e excesso de chuva. Para Cabrera, a proteção também contribui para a estabilidade da produção, do abastecimento e dos preços dos alimentos.
POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AGREGAR VALOR
O ex-ministro defende medidas estruturantes para ampliar a capacidade industrial do país, fortalecer a produção de biocombustíveis e aumentar a cobertura do seguro rural.
Na avaliação de Cabrera, o Brasil reúne conhecimento técnico e disponibilidade de matéria-prima para expandir a indústria ligada ao agronegócio. O desafio é transformar essa capacidade em investimentos, empregos e maior valor agregado à produção nacional.