Agro

Da panela para a academia, feijão carioca substitui proteínas

24 ago 2026 às 22:41

Pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), sediada no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas (SP), desenvolveram um concentrado proteico sustentável a partir da “bandinha” do feijão carioca. A iniciativa aproveita os grãos partidos e desvalorizados comercialmente para criar ingredientes voltados à indústria alimentícia nacional.


O Brasil produz cerca de 3 milhões de toneladas de feijão por ano, das quais 54% correspondem à variedade carioca. No entanto, a etapa de beneficiamento gera entre 1% e 5% de resíduos de grãos quebrados. O novo insumo busca reduzir a dependência da indústria brasileira em relação a proteínas vegetais importadas, como as derivadas de soja e ervilha.


A coordenadora do projeto e pesquisadora do Ital, Mitie Sonia Sadahira, explica que a proposta central foi extrair uma proteína de fonte vegetal genuinamente nacional. O trabalho foi apresentado em Campinas para detalhar os avanços tecnológicos alcançados pelo consórcio de pesquisa.


Processo sustentável e valor nutricional

A extração utiliza o fracionamento a seco, método ecológico que dispensa solventes químicos e consome menos água e energia elétrica do que os processos tradicionais. O feijão moído transforma-se em farinha integral e é separado mecanicamente em duas partes: uma fração amilácea (rica em amido) e outra proteica.


Tratamentos térmicos prévios reduzem em até 95% os fatores antinutricionais, substâncias como taninos e fitatos que prejudicam a digestão. Com isso, o índice de digestibilidade ultrapassa 60%. O tratamento também elimina o sabor residual de terra e confere cor clara ao pó final.


Aplicações na indústria e inovação aberta

A versatilidade do ingrediente viabilizou a formulação de cappuccino sem açúcar enriquecido com 5 gramas de proteína por porção e bebidas vegetais com polpas de manga e maracujá. A fração de amido, que retém de 10% a 20% de proteína, deu origem a snacks doces e salgados enriquecidos.


A empresa SL Alimentos conduz a validação fabril em escala industrial. A gestora executiva Gisele Anne Camargo afirma que a tecnologia alcançou os níveis 5 e 6 na escala TRL de maturidade tecnológica. Caso os parceiros não exerçam a exclusividade de licenciamento, o ingrediente fica disponível para o mercado geral.

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