Os órgãos internacionais e nacionais de meteorologia elevaram a probabilidade de formação do fenômeno El Niño no Brasil no segundo semestre deste ano. De acordo com os dados do Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a chance de estabelecimento do fenômeno supera 60% no trimestre maio–junho–julho e pode ultrapassar os 90% a partir de agosto. Alguns órgãos já classificam o fenômeno como “El Niño Superpoderoso”.
Atualmente, o monitoramento climático aponta para o fim da fase La Niña, com a vigência de neutralidade no Pacífico equatorial central. Esta condição neutra tem 80% de chance de persistir até o encerramento do primeiro semestre, antes da transição para a fase quente do sistema ENOS (El Niño-Oscilação Sul).
O que é o fenômeno El Niño?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Para que o episódio seja configurado, as temperaturas da superfície do mar devem permanecer, no mínimo, 0,5°C acima da média por um período prolongado.
O comportamento dos ventos alísios — ventos constantes que sopram do leste para o oeste na Linha do Equador — é fundamental nesse processo. Quando esses ventos enfraquecem ou invertem a direção, a troca entre águas superficiais quentes e águas profundas frias não ocorre, elevando a temperatura do oceano em até 3°C acima da média.
Impactos previstos para a agricultura brasileira
O agronegócio é um dos setores mais vulneráveis às mudanças nos padrões de chuva e temperatura causadas pelo El Niño. No Brasil, os efeitos costumam ser opostos entre as regiões e eles afetam a produção de alimentos de todas as formas, com possibilidade de uma seca muito severa e ao mesmo tempo, chuvas em excesso que podem provocar enchetes.
Nas regiões Norte e Nordeste, assim como na porção norte do Centro-Oeste e Sudeste, a tendência é de redução das chuvas e aumento da frequência de períodos de estiagem. Esse cenário eleva o risco de perdas em sistemas de sequeiro (cultivos que dependem exclusivamente da água das chuvas) e pode prejudicar a implantação da safra de verão, especialmente de soja e milho.
Diferente do restante do país, a Região Sul costuma registrar volumes de chuva acima da média durante o El Niño, especialmente no inverno e na primavera. Embora favoreça a disponibilidade hídrica, o excesso de umidade traz prejuízos ao manejo agrícola.
Para os cereais de inverno, como trigo, cevada e aveia, os meses de setembro e outubro são os mais críticos, pois o excesso hídrico nas fases de floração e maturação compromete a produtividade. Além disso, a alta umidade no solo favorece a ocorrência de doenças fúngicas, prejudica a qualidade final dos grãos e dificulta o tráfego de máquinas e as práticas de manejo no campo.
A intensidade total desses impactos dependerá da força com que o fenômeno se estabelecer e da interação com as condições térmicas dos oceanos Atlântico e Índico nos próximos meses.