A China oficializou, no último dia 31 de dezembro de 2025, uma rígida medida de salvaguarda que altera a dinâmica do comércio global de proteínas. A nova regra impõe limites de volume para a importação de carne bovina e estabelece uma sobretaxa de 55% para o que exceder a cota estipulada, impactando diretamente o agronegócio brasileiro a partir deste início de 2026.
De acordo com as diretrizes anunciadas, a cota anual definida para o Brasil em 2026 é de 1,106 milhão de toneladas. O volume de carne que for exportado dentro desse limite continuará pagando a tarifa normal de 12%.
No entanto, qualquer tonelada que ultrapasse esse teto sofrerá a incidência da sobretaxa. Somando a tarifa base com a nova cobrança, o imposto total chega a 67%, o que, na prática, inviabiliza a venda do excedente para o mercado chinês.
Entenda o impacto no bolso do consumidor
Para o brasileiro, a decisão traz uma perspectiva de alívio no orçamento doméstico no curto e médio prazo. A lógica de mercado é baseada na lei da oferta e da procura: com a dificuldade de enviar o produto para a China, a carne precisa encontrar outro destino.
Como o mercado chinês é o maior comprador da proteína brasileira, o volume que deixará de ser embarcado é expressivo. Estima-se que, se o ritmo de produção atual for mantido, haverá um "excedente" entre 500 mil e 600 mil toneladas de carne.
Esse montante deverá ser redirecionado ao mercado interno. Com mais carne disponível nas prateleiras dos açougues e supermercados do Brasil, a tendência natural é que os preços caiam para garantir o escoamento da produção.
Desafios para o setor produtivo
Se para o consumidor a medida soa positiva, para o produtor rural o cenário exige cautela e estratégia. A consultoria Safras & Mercado avalia que a adoção das salvaguardas traz uma perspectiva "menos favorável" para as exportações nacionais neste ano. O aumento da disponibilidade de animais e de carne no mercado interno tende a pressionar as cotações da arroba do boi gordo para baixo. Isso pode afetar a rentabilidade do pecuarista, que já lida com custos de produção elevados.
Segundo dados de mercado, o Brasil exportou entre 1,5 e 1,7 milhão de toneladas para a China em 2025. Comparando esse volume com a nova cota de 1,1 milhão, o setor produtivo enfrenta o desafio imediato de realocar centenas de milhares de toneladas.
Motivações e análise de mercado
A decisão de Pequim não é isolada. A medida visa proteger os produtores locais chineses, que enfrentam uma desvalorização do seu produto devido à alta oferta interna no país asiático. Ao taxar o produto estrangeiro, o governo chinês tenta equilibrar a competitividade de sua pecuária doméstica.
Para Marcos Jank, especialista em agronegócio, a China "exagerou na dose" ao estabelecer a salvaguarda. A rigidez da taxa de 55% cria uma barreira comercial severa para um dos principais parceiros comerciais do país. Apesar do cenário desafiador, existem caminhos para mitigar o impacto. Fontes ligadas ao setor exportador apontam que negociações diplomáticas podem permitir que o Brasil assuma cotas de outros países que não conseguirem preencher seus volumes.
Além disso, a abertura e a ampliação de novos mercados, como os Estados Unidos, tornam-se ainda mais urgentes para evitar um colapso nos preços da arroba e garantir a saúde financeira da pecuária nacional.
Com informações da Agência Brasil e Safras & Mercado.