O Ministério das Relações Exteriores e o Palácio do Planalto descartaram, em um primeiro momento, a realização de um encontro bilateral formal entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a cúpula dos líderes do G7 em Évian, na França.
Apesar do ceticismo diplomático inicial, Lula antecipou o cronograma de sua viagem oficial ao continente europeu para garantir presença na cerimônia de abertura do fórum internacional. A manobra estratégica de bastidores foi desenhada para tentar ampliar as janelas de contato informal e aproximação com o mandatário republicano.
A agenda prioritária da comitiva brasileira no G7 está concentrada em conter danos comerciais de grande escala. Além de articular contra o impacto de um eventual novo tarifaço protecionista planejado por Washington, a diplomacia do Brasil busca reverter os recentes embargos econômicos impostos pela União Europeia (UE), sobretudo os vetos à importação de proteínas animais por alegações de ordem sanitária.
Nesta terça-feira (16), conforme o cronograma oficial divulgado pela assessoria do Planalto, Lula cumpre agendas bilaterais decisivas com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
União Europeia oficializa veto a proteínas brasileiras
A ofensiva diplomática brasileira ocorre em um momento de forte fricção comercial. A União Europeia formalizou a decisão de proibir por tempo indeterminado a importação de carnes, tripas, pescados e mel produzidos em território brasileiro. A medida restritiva está programada para entrar em vigor a partir do dia 3 de setembro.
O anúncio do embargo surpreendeu o mercado financeiro por ocorrer poucos dias após o início da vigência provisória do complexo acordo comercial assinado entre o Mercosul e a União Europeia. A exclusão do Brasil da lista de nações autorizadas a exportar produtos de origem animal foi publicada no Diário Oficial da UE.
Segundo o parecer técnico da Comissão Europeia, o governo brasileiro não apresentou garantias documentais e laboratoriais suficientes de que os pecuaristas cumprem as rígidas exigências sanitárias do bloco. O principal entrave reside na comprovação de que não são utilizados, ao longo da cadeia produtiva, medicamentos antimicrobianos para o tratamento ou prevenção de infecções bacterianas em rebanhos.
Políticas de segurança alimentar e impactos no PIB
Em abril deste ano, o Ministério da Agricultura do Brasil chegou a proibir o uso de diversas classes de antimicrobianos utilizados pela indústria para estimular o crescimento e acelerar a produtividade animal. Contudo, os técnicos de Bruxelas avaliaram as medidas como insuficientes e exigiram auditorias adicionais de rastreabilidade.
As restrições de importação integram a política de segurança alimentar do bloco europeu conhecida como One Health ("Saúde Única"), voltada ao combate global do uso excessivo de antibióticos na agropecuária. Entre as substâncias proibidas pelos europeus e rastreadas nos carregamentos estão:
Virginiamicina e avoparcina;
Tilosina e espiramicina;
Avilamicina e bacitracina.
A União Europeia configura-se historicamente como um dos mercados mais rentáveis para a balança comercial das proteínas animais brasileiras. No segmento de carne bovina in natura, o bloco econômico europeu figura de forma isolada entre as principais praças de destino das exportações nacionais em valor agregado por tonelada.