Produtores rurais do Distrito Federal alcançaram sucesso no cultivo de camomila, uma planta tradicionalmente associada ao clima frio do sul do país. A adaptação da espécie ao bioma Cerrado é fruto de pesquisa aplicada e dedicação familiar, transformando propriedades locais em verdadeiros laboratórios a céu aberto que unem agricultura, ciência e educação ambiental.
A camomila (Matricaria chamomilla), também conhecida popularmente como "camomila dos alemães", encontrou condições favoráveis na região de Brasília, especialmente durante o inverno. Nesta época, a amplitude térmica — diferença entre a temperatura máxima e mínima no mesmo dia — joga a favor do campo. As madrugadas frias da capital federal, que podem atingir marcas de até 5°C, simulam o ambiente ideal para o desenvolvimento da flor.
O sucesso desse cultivo abre portas para a diversificação agrícola na região, atendendo tanto à indústria de chás quanto ao exigente mercado de cosméticos, que utiliza o óleo essencial da planta em diversos produtos de beleza e saúde.
Adaptação e diversidade no campo
O destaque desse movimento de inovação no campo é uma chácara familiar que se tornou referência na produção de plantas medicinais. Além da camomila, o local abriga o cultivo de pelo menos 40 outras espécies com propriedades terapêuticas. Entre as variedades cultivadas estão a espinheira-santa, o hibisco, a babosa e a estévia. Essa biodiversidade garante não apenas a sustentabilidade econômica da propriedade, mas também o equilíbrio ambiental do solo.
Para viabilizar o plantio de uma cultura típica do Sul no Centro-Oeste, o conhecimento técnico foi fundamental. Um dos produtores responsáveis pela chácara destaca a importância da cooperação acadêmica nesse processo. "Aqui nesta chácara a gente consegue plantar a camomila, que a gente conseguiu adaptar, e sempre a gente faz pesquisas também junto com a UnB [Universidade de Brasília]", relata o agricultor. A parceria com a universidade permite testar o manejo mais adequado para o solo e o clima do Cerrado.
Sala de aula a céu aberto
A propriedade não se limita apenas à produção comercial. O espaço assumiu uma vocação pedagógica, funcionando como um centro de difusão de conhecimento. Há 20 anos, um projeto de educação ambiental realizado no local recebe alunos de escolas da região para atividades que integram aprendizado social, cultural e ambiental. Mais de 300 estudantes já passaram pela experiência.
O objetivo vai além de ensinar botânica; trata-se de manter viva a tradição do uso de ervas. "A ideia sempre foi perpetuar. Os mais novos, quem é que vai levar adiante? O convívio sobre as ervas medicinais, a medicina milenar também, então aquele chazinho, aquele cuidado que a avó tem", afirma o responsável pelo projeto.
Durante o período de floração, a experiência sensorial é intensa. O aroma característico da camomila toma conta do ambiente, facilitando a fixação do conteúdo pelos visitantes.
Uma das alunas participantes da visita destacou a relevância de ver a teoria na prática. "Quando eu estiver doente, aí eu vou saber se o benefício da camomila pode ajudar. Colocar em prática, né? E conhecer as plantas que eles estudaram", comenta a estudante.
Beneficiamento e agregação de valor
O ciclo produtivo na chácara é completo, indo do plantio ao beneficiamento — processo em que a matéria-prima é preparada para o mercado. O local conta com uma sala específica onde a planta é processada, garantindo a qualidade necessária para o fornecimento às indústrias.
Esse cuidado no pós-colheita é essencial para preservar os princípios ativos da planta medicinal. O beneficiamento correto agrega valor ao produto final, permitindo que o pequeno produtor aumente sua rentabilidade.
A iniciativa no Distrito Federal comprova que, com tecnologia e pesquisa, é possível romper barreiras geográficas na agricultura. A adaptação da camomila ao Cerrado gera benefícios econômicos para o produtor rural e reforça a importância do uso consciente e sustentável dos recursos naturais.